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Bullying e o Aluno com Deficiência

É comum associarmos o preconceito a casos de bullying, por exemplo. Porém, as atitudes preconceituosas estão em nosso dia a dia: nas falas de muitas pessoas; numa escola que quase se recusa a fazer a matrícula de um aluno com paralisia cerebral…

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Descrição da Imagem #PraCegoVer: Foto mostra uma pessoa em cadeira de rodas. Ela está de costas e levemente lateralizada, sozinha em um corredor escuro e uma luminosidade ao final do corretor. Na foto só aparece seu semblante, sem cor. No meio da imagem, em fonte grande e azul está escrito: Bullying não é brincadeira.  Fim da descrição | Foto: Reprodução/ Sem filtros de licença.

Quem tem medo do diferente?

Confira o relato sincero e emocionante do Murilo, sobre um assunto muito sério: O Bullying e o Aluno com Deficiência

O que é ser normal? Diariamente, somos induzidos a seguir padrões impostos pela sociedade. Quem não se adequa a essas “normas” é denominado(a) “diferente”, e essa diferença incomoda muitas pessoas.

É comum associarmos o preconceito a casos de bullying, por exemplo. Porém, as atitudes preconceituosas estão em nosso dia a dia: nas falas de muitas pessoas; numa escola que quase se recusa a fazer a matrícula de um aluno com paralisia cerebral, porque ela não quer gastar para adequar suas instalações e torná-las acessíveis; numa empresa que prefere contratar uma pessoa com formação acadêmica inferior, mas que se encaixa nesse padrão “normal”, do que contratar uma pessoa com deficiência que é melhor qualificada para o trabalho, entre outras situações em que o preconceito está presente.

No meu caso, há uma limitação motora grande, pois não ando. Isso já incomodou e incomoda algumas pessoas. Quando ingressei no Ensino Fundamental, eu e minha mãe fomos conhecer várias escolas da cidade onde vivo. Algumas instituições quase pediram para nos retirarmos, porque não estavam dispostas a ter um aluno cadeirante, mesmo que a maioria delas possuísse condições materiais (acessibilidade, etc).

Bullying e o aluno com deficiência
Descrição da Imagem #PraCegoVer: Fotografia antiga com alunos usando uniforme azul e branco, e com a professora, em área externa. No canto está a professora, ao centro, seis crianças estão sentadas uma ao lado da outras em um banco, e no canto direito está Murilo. Uma criança de pele branca e cabelo castanho claro. Ele está sentado sua cadeira de rodas, que tem à sua frente uma mesa de atividades, como uma carteira de escola. Fim da descrição | Foto: Arquivo Murilo Pereira dos Santos.

Uma busca necessária

Então, decidimos esperar e escolher um lugar que não só apresentasse as condições materiais, mas que também tivesse uma política mais inclusiva para que eu pudesse me sentir bem.

Na busca de instituições de ensino apropriadas, eu fiquei um ano sem frequentar escolas. Hoje, nos arrependemos de não ter denunciado essas escolas na Secretaria de Ensino, pois é obrigação delas dar as condições mínimas para que um aluno possa estudar.

Sem Barreiras
Murilo Pereira dos Santos – Sem Barreiras

“A inclusão é bonita… no papel. Mais que condições materiais e econômicas, é preciso consciência para que a inclusão aconteça de fato.”

Bullying de quem menos se espera

Numa escola onde eu estudei, por exemplo, havia toda a acessibilidade e profissionais para me auxiliar. Porém, nenhum colega me chamava para fazer trabalho em grupo e, nos últimos anos em que fiquei lá, eu não participava efetivamente das aulas de Educação Física. Então, precisamos entender de uma vez por todas que a inclusão não é só na acessibilidade da infraestrutura, mas sim uma relação social entre as pessoas envolvidas.

Além da falta de consciência, existe um grande fator que dificulta – e muito – a inclusão: o bullying. Já sofri muito com essa prática e ainda sofro. Quando eu ainda era criança, tive uma professora que praticava bullying comigo. Se eu derrubasse a minha toalha (a qual uso para limpar minha boca), ela me deixava de castigo durante o intervalo, ou seja, sozinho na sala de aula. Tenho distonia (movimento involuntário) e, por isso, é comum eu derrubar ou bater nos objetos sem querer.

Além disso, essa professora colocava um tapete de EVA embaixo de mim quando eu ia brincar na areia, para que ela não sujasse seus tênis. Ela me colocava dentro de uma caixa plástica, dessas utilizadas por supermercados para entregar compras, quando eu ia entrar na piscina de bolinhas, para que não tivesse o trabalho de me segurar. Também não denunciamos a escola, por acreditar que as palavras de uma criança não serviriam como prova. E os funcionários que viam aquilo tudo acontecendo negaram até o final que presenciaram o bullying. Nos arrependemos muito por não termos feito nada contra a escola e a professora.

Bullying e o aluno com deficiência
Descrição da Imagem #PraCegoVer: Fotografia mostra Murilo, um pouco mais crescido, ao lado de colegas de classe no 8º ano. Ele está sentado na cadeira de rodas, utiliza um cinto de segurança, tipo colete, para manter-se na posição. Ao seu lado estão colegas, meninos e meninas, que fazem parte da equipe de Olimpíada Nacional em História do Brasil, e estão segurando um cartaz com a seguinte pergunta: Quantas histórias fazem a sua história?, e o desenho do mapa do Brasil. À frente de todos, há um garoto sentado no chão com os dois braços abertos e sorrindo. Fim da descrição | Foto: Arquivo Murilo Pereira dos Santos.

Bullying: Offline e Online

Houve também um caso de bullying virtual, no qual recebo mensagens anônimas com os piores conteúdos imagináveis. Isso aconteceu por mais de dois anos, e ainda fico muito abalado quando acontecem os ataques. 

Em 2014, houve dias em que eu não consegui ir para a escola. Eu chorava e travava, pois tinha muito medo de ir ao colégio e encontrar com a pessoa que estava praticando essas ações criminosas. Quando isso acontecia, procurava me distrair fazendo coisas que eu gosto, como ouvir música, por exemplo.

Em uma das últimas mensagens que recebi, a pessoa mostrou-se muito incomodada com o fato de eu precisar de ajuda dos meus pais para quase tudo. Aí eu fiquei refletindo: quem não precisa de ajuda em alguma coisa? Eu, por causa da minha limitação física, preciso, sim, de muita ajuda das pessoas que estão ao meu redor. Mas isso não me incomoda de maneira alguma. Eu inclusive enxergo isso como algo muito positivo, afinal todos nós precisamos de ajuda. Meus amigos, familiares e o tratamento psicológico foram fundamentais para que eu conseguisse superar esses dois casos de bullying.

Nada como um dia após o outro

Na transição entre Ensino Médio e Universidade, uma insegurança me rondou, talvez por toda a frieza que ouvia as pessoas dizerem a respeito do ambiente do Ensino Superior. Contudo, nada melhor do que a própria experiência para provar o contrário. Logo nos meus primeiros dias de aula na faculdade, fui muito bem acolhido, tanto pelos profissionais e principalmente pela turma. Sempre havia alguém disposto a ajudar se fosse preciso. Por isso, me ambientei de forma assustadoramente rápida, como nunca havia acontecido em outras instituições de ensino.

O preconceito é um empecilho gigante, mas não pode ser uma barreira em nossas vidas. Nesse sentido, o paradesporto surgiu como uma ferramenta que abriu meus horizontes. Através do contato com outros paratletas, com realidades parecidas ou totalmente distintas da minha em competições, em concentrações ou em simples conversas percebi que existe uma infinidade de “diferentes” e que tal pluralidade, ao passo que choca quem não está preparado para lidar com ela, também proporciona uma naturalidade que torna o cotidiano mais leve.

Murilo Pereira

Murilo Pereira

Cursando a faculdade de Jornalismo, Murilo Pereira dos Santos é Paratleta pela categoria BC1 de Bocha Paralímpica Ituana. Ele administra, nas redes sociais, as páginas "Vem Comigo" e "Sem Barreiras", este último oriundo do seu blog que dá nome a coluna aqui no site Jornalista Inclusivo, sobre paradesporto e outras questões.

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