#Audiodescrição: A imagem, vista em um ângulo diagonal superior, mostra uma mesa de madeira escura organizada para estudo ou leitura. No centro-direito, repousa o livro de capa branca “CAPACITISMO MEU DE CADA DIA – VOLUME II”, organizado por Alini Mariot e André Werkhausen Boone, publicado pela editora inclusificando. À direita do livro, há um par de óculos de grau com armação escura. À esquerda do livro, um caderno aberto exibe anotações manuscritas em tinta azul, com uma caneta escura de detalhes prateados repousando sobre as páginas. No canto superior esquerdo, há uma xícara de cerâmica branca contendo café com espuma. Ao fundo, desfocada, nota-se uma estante de madeira com livros. (Créditos: Divulgação)
Em vez de respostas prontas, a obra oferece encontros com histórias, perspectivas e experiências que desafiam visões simplificadoras sobre a deficiência.
Por Amanda Ganzarolli
Em junho de 2026, a Editora Inclusificando lança o segundo volume de Capacitismo Meu de Cada Dia, uma obra coletiva que reúne 32 autores e autoras em torno de um objetivo comum: compartilhar experiências, provocar reflexões e ampliar o debate sobre inclusão, acessibilidade e os direitos das pessoas com deficiência. Tenho a alegria de fazer parte desta publicação e, talvez por isso, seja difícil falar sobre ela apenas como leitora. Ao longo da construção do livro, pude acompanhar um processo que foi muito além da escrita. O que nasceu como uma coletânea de textos transformou-se em um espaço de encontro, escuta e pertencimento.
E sobre a escrita? Ah, a escrita. Ela foi difícil. Chorei em cada linha. Chorei enquanto terminava cada frase. Chorei enquanto pausava para atender meu filho. Chorei enquanto escrevia no quarto e ouvia sua voz cantarolando na sala. Chorei porque, nesta escrita, apresentei meus medos mais profundos. Chorei porque imaginei as milhares de mães que compartilham sentimentos semelhantes aos meus. Chorei porque, enquanto escrevia, na verdade desejava que fosse meu filho quem estivesse escrevendo.
Mas, antes que você defina antecipadamente do que trata esta obra, deixe-me contar um pouco mais.
Em continuidade à proposta da primeira edição, este novo volume aprofunda a discussão sobre as diferentes formas pelas quais o capacitismo atravessa o cotidiano. As narrativas abordam temas como identidade, corpo, família, cuidado, educação, trabalho, saúde, linguagem, arte, cultura e participação social. São histórias que revelam barreiras, mas também resistência, autonomia e a capacidade humana de construir novos caminhos diante das adversidades.
Um dos diferenciais desta edição foi justamente o processo coletivo de construção da obra. Ao longo de sua elaboração, os participantes integraram encontros voltados à troca de experiências, ao fortalecimento de vínculos e ao amadurecimento dos textos. Também foram realizadas mentorias individualizadas para apoiar os autores em diferentes etapas da escrita.
Mais do que revisar conteúdos, o objetivo desse acompanhamento foi garantir que cada pessoa pudesse narrar sua própria experiência com autenticidade, segurança e profundidade. A proposta editorial partiu do entendimento de que dar voz não significa falar por alguém, mas criar condições para que diferentes perspectivas possam ser compartilhadas e reconhecidas.
Como destaca Alini Mariot, editora-chefe da Inclusificando e organizadora da obra, “este segundo volume representa o amadurecimento de um projeto que nasceu do desejo de transformar experiências individuais em conhecimento coletivo”. Acredito que essa definição sintetiza muito bem o espírito do livro.
Seria difícil mensurar o impacto de cada experiência reunida nesta obra. Cada pessoa é única. Embora os autores e os personagens de suas histórias compartilhem, de diferentes formas, a experiência da deficiência, suas vivências, desafios, lutas, perspectivas, abordagens e narrativas são singulares. E isso nunca deveria ser questionado. Afinal, diante da diversidade que caracteriza a condição humana, por que colocaríamos as pessoas com deficiência dentro de uma única bolha?
Acredito que essa seja a principal característica de Capacitismo Meu de Cada Dia. Sua capacidade de revelar a amplitude e a complexidade do universo da deficiência. Seja como pessoa com deficiência ou como cuidador, nossas experiências são plenas, legítimas e únicas. Nenhuma está acima da outra. Nenhuma é melhor ou pior. O que existe é um arco íris de vivências que se complementam e ampliam nossa compreensão sobre o mundo.
Essa diversidade pode ser observada nos temas que atravessam os capítulos: o corpo, os sonhos, a escola, o medo, as cores que se apagam, a maternidade, os papéis familiares e o labirinto da fibromialgia. Entre essas páginas, navegamos por narrativas sobre o luto, o direito de errar, a construção coletiva, os direitos linguísticos e as diferentes formas de pertencimento. É possível se imaginar em uma sala de aula, em uma sala de cinema ou em qualquer espaço onde a diferença ainda precise ser reconhecida não como problema, mas como potência.
Ao mesmo tempo, a obra nos convida a refletir sobre o isolamento, o silêncio imposto àqueles que não são vistos e as cicatrizes deixadas pela exclusão. Mais do que relatos em forma de crônicas ou poemas, encontramos aqui um universo de reflexões sobre o capacitismo: o afeto que exclui, a hostilidade urbana, as barreiras invisíveis e as fissuras do mundo corporativo.
Este livro não é um manual. Não é um guia de diretrizes anticapacitistas. Para mim, ele é um amigo. Um aliado. Gosto de imaginá-lo como uma sala onde 32 pessoas compartilham suas histórias, seus medos, suas conquistas e suas inquietações para o mundo. Uma sala em que a escuta produz conexão e onde novas perspectivas podem ser construídas coletivamente.
Também não é uma obra sobre superação, narrativa que, muitas vezes, reproduz uma visão capacitista da deficiência. É, acima de tudo, uma obra sobre dignidade. Sobre pertencimento. Sobre o direito de existir, participar e sonhar. Uma sala em que a conversa principal não é a deficiência em si, mas a humanidade que compartilhamos.
Organizado e revisado por Alini Mariot e André Werkhausen Boone, com projeto gráfico e diagramação de Everton Cosme, o livro representa a continuidade de um movimento que busca valorizar a produção de conhecimento, a cultura e o protagonismo das pessoas com deficiência. Mais do que uma publicação, a obra reafirma a convicção de que a inclusão também se constrói por meio da palavra, da escuta e da circulação de histórias capazes de transformar percepções e ampliar diálogos sobre diversidade e direitos humanos.
Ao finalizar a leitura, permaneço com a sensação de que o maior mérito desta obra está justamente em sua pluralidade. Não há uma única história sobre deficiência. Não há uma única forma de vivenciar a inclusão, o cuidado, a autonomia ou o pertencimento. Existem múltiplas experiências, múltiplas vozes e múltiplos olhares. E é justamente essa diversidade que torna Capacitismo Meu de Cada Dia uma leitura tão necessária.
Aquisição do livro
Mais informações
- Site: https://inclusificando.com
- Email: inclusificando@gmail.com
- Redes sociais: @editorainclusificando
Participam desta edição os autores Aisamaque Gomes de Souza, Alex Garcia, Alisson Barboza Azevedo, Amanda Ganzarolli, Ângela Ribeiro, Christian Wagner, Dorival Armando Ellwanger, Gabriela Oliveira Mota, Jeferson Bossoni Mendes, Joyce Luciane Correia Muzi, Karina Zonzini, Krysna Bezerra Dias, Laryssa Barros Miranda, Liza Cristina Cenci, Luciana Trindade de Macedo, Marcius Andrei Ullmann, Marina Alonso Guimarães, Marli Schiefelbein Arruda, Martha Arno, Mike Silva de Oliveira, Naraina Zerwes Gentil, Nilzete Viana da Silva, Patrícia Saiago, Paulo Henrique da Silva Leonardo, Renata Damázio Feitosa, Rosa Matsushita, Roselene Rodrigues Barboza, Simone Dutra Oliveira Kichel, Susana Carrasco, Taís Lima de Oliveira, Uelinton de Oliveira Canedo e Vitória Eduarda Lima Costa.
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