Amor de Bicho: A importância do cão-guia para pessoas cegas é retratada em série

Personagens da segunda temporada série Amor de Bicho, Camila Alves com seu cão-guia Pix, em pé na beira de uma baía, com montanhas e a cidade ao fundo.

Descrição da imagem: As personagens da 2ª temporada série Amor de Bicho, Camila Alves e seu cão-guia Pix estão em pé na beira de uma baía, com montanhas e a cidade ao fundo. (Créditos: Duplamente Filmes e Pontos de Fuga / Reprodução)

Segunda temporada da série documental disponível no YouTube explora a profunda relação entre cão-guia e pessoas cegas.

A segunda temporada da série documental “Amor de Bicho” já está disponível no YouTube . Dirigida por Mônica Prinzac e roteirizada por ela em parceria com Mariana Muniz, a série investiga a profunda conexão entre animais e seus donos através de histórias inspiradoras e emocionantes. 

Neste artigo

Boa leitura!

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Cães-guia e a deficiência visual no Brasil

A primeira temporada da série, lançada em 2020, apresentou vivências com bichos como cavalos, papagaios, gatos, porcos e vacas. Por meio de depoimentos que destacam os benefícios da relação entre eles e o meio ambiente, espectadores conheceram personagens que encontraram cuidado e acolhimento em seus companheiros. Nesta nova temporada, os seis episódios focam especificamente em cães-guia e suas donas e donos. 

De acordo com o IBGE, no Brasil existe cerca de 7 milhões de pessoas com alguma deficiência visual e menos de 200 cães-guia em atividade. A série destaca a importância crucial desses animais para a autonomia e qualidade de vida de suas donas e donos, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a disparidade entre a demanda por cães-guia e a oferta disponível, sublinhando a necessidade urgente de mais iniciativas e investimentos nessa área.

Um encontro entre espécies

“A série é sobre o encontro entre as espécies, sobre criar juntos, sobre relações e laços que unem todos nós. Como esse encontro pode criar novos modos de estar no mundo?”, diz Mônica Prinzac, diretora responsável pelo projeto, e a primeira cineasta do Brasil a filmar o processo de treinamento de um cão-guia. Atualmente, está se dedicando à pré-produção do documentário “O Milagre da Sintonia”, que aborda o encontro de pessoas cegas e seus cães-guia. O lançamento está previsto para 2025.

O episódio de estreia oferece uma visão abrangente dos três personagens desta temporada, cada um com suas próprias histórias: Claudinê Vicioni, aos 74 anos, a pessoa cega mais idosa do Brasil a receber um cão-guia; Camila Alves, psicóloga e ativista pela inclusão, que compartilha sua jornada com seu terceiro cão-guia, Pix; e Jonas Santiago, um músico que perdeu seu cão-guia Trevor de forma repentina e agora aguarda ansiosamente por um novo companheiro.

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Três personagens e muitas histórias

Camila e os cães Puca, Astor e Pix

Ainda criança, Camila começou a apresentar sintomas da doença degenerativa que a deixou totalmente cega aos 15 anos. Aos 18, foi para o Rio de Janeiro estudar psicologia. Tendo conhecido desde cedo as barreiras que a diversidade traz – físicas mas principalmente sociais – Camila iniciou um percurso de reabilitação no Instituto Benjamin Constant, onde aprendeu a andar na rua de bengala, a pegar ônibus e a realizar tarefas domésticas.

Após 2 anos, veio a oportunidade de Camila realizar o sonho de conviver com um cão-guia, a cadela Puca, treinada especialmente para ela. Junto com Puca, veio a segurança e a maior autonomia:

“Ela me trouxe de volta o meu tempo. Eu não precisava mais pedir para outras pessoas me levarem ao banheiro, à praia, sair para passear. Eu passei a ter uma relação com lazer e prazer. Antes com a bengala era tudo uma luta. Com Puca, eu passei a acordar e ter vontade de dar uma volta!”

Pix, o cão-guia preto de Camila, deitado em uma calçada com montanhas e água ao fundo.
Descrição da Imagem: O cão-guia Pix, da Camila, tem pelagem preta e está deitado em uma calçada, olhando para a direita com uma expressão tranquila. Ao fundo, uma grande montanha e uma extensão de água sob um céu azul com nuvens leves são visíveis. Uma folha seca está no chão próximo ao cão. (Créditos: Duplamente Filmes e Pontos de Fuga/Reprodução)

Puca se aposentou após uma longa vida de parceria, e Camila recebeu Astor, seu segundo cão-guia, que viveu com ela por 8 anos. Agora Camila está se adaptando ao seu novo cão Pix, que como os outros, também a ajuda em suas reflexões e em sua luta por uma sociedade mais inclusiva e acolhedora.

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Claudinê e seu cão-guia Vince

Claudinê desde os trinta anos convive com problemas na visão, que se iniciaram após uma cirurgia mal feita, e ficou totalmente cego em idade já madura. Hoje, aos 74 anos, ele se tornou o cego mais idoso do Brasil a ter um cão-guia. Viúvo, vive com uma das filhas, que até pouco tempo fazia tudo dentro de casa e o ajudava. Mas com a chegada de Vince, ele diz querer recomeçar a ser mais ativo e independente. “Do Vince sou só eu quem vai cuidar, para sempre”.

Além disso, Claudinê que saía pouco, e só pelas redondezas de casa, agora quer começar a dar mais passeios, pois “até agora, nesse breve período de adaptação, o que mais gostei foi poder caminhar mais rápido e confiante, e sentir de novo o vento em meu rosto”.

Claudinê, um homem cego caminhando com seu cão-guia Vince em uma rua pavimentada sob um céu azul claro.
Descrição da Imagem: Claudinê, um homem cego, vestindo um casaco escuro e boné, atravessa uma rua pavimentada com a ajuda de seu cão-guia Vince, com pelagem preta. O fundo mostra um prédio de tijolos e algumas árvores, com um céu azul claro acima. (Créditos: Duplamente Filmes e Pontos de Fuga/Reprodução)

O período de adaptação pode ser longo e difícil, a presença de um cão também exige mudanças em casa e nos hábitos, mas Claudinê, como conta o treinador Gustavo — profissional especializado na preparação de cães-guia –, “está disposto a recomeçar como nenhum outro, ele já transformou muita coisa em sua vida antes mesmo da chegada de Vince, e também por isso eu soube que ele estava apto a receber o cão”.

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Jonas e os cães Zuca e Trevor

O músico Jonas também ficou cego gradualmente por causa de uma doença degenerativa, e na adolescência já não enxergava mais. Para ele, que nunca se sentiu à vontade usando a bengala, o convívio com seu primeiro cão-guia, Zuca, foi transformador. Zuca, sempre entusiasmada e cheia de energia, possibilitou que o espírito aventureiro de Jonas se realizasse, e ele começou a praticar esportes como remo e vela. Juntos até subiram no pódio de uma regata no Rio.

Quando Zuca envelheceu, ficou cega e se aposentou, chegou Trevor, que assumiu a guia. Os três passaram a conviver, cada um com seu papel, e entre eles a amizade e o companheirismo. Com Trevor, Jonas iniciou seus estudos de música, e em sua formatura lá estava o parceiro. “Eu cuidava de Zuca e Trevor cuidava de mim. Ele me guiava nas minhas atividades, e depois eu saía sozinho com Zuca para guiá-la em seus breves passeios”.

Jonas, um homem cego caminhando com Trevor, seu cão-guia dourado, em uma praia ensolarada com montanhas ao fundo.
Descrição da Imagem: Jonas é um homem de cabelos longos e barba, vestindo shorts pretos. Está caminhando descalço na areia de uma praia, segurando a guia de Trevor, seu cão-guia dourado. Ao fundo, a praia está parcialmente ocupada com pessoas sob guarda-sóis coloridos e grandes montanhas verdes e rochosas se destacam contra o céu azul claro. (Créditos: Duplamente Filmes e Pontos de Fuga/Reprodução)

A inversão dos papéis entre eles criou uma série de mudanças na rotina de Jonas, e no modo dele perceber o significado do que é útil, daquilo que fazemos simplesmente para “facilitar nossa vida”, e do que, apesar de todas as dificuldades, é cuidar do outro e buscar o seu bem estar. A morte de Zuca fechou um ciclo na vida de Jonas, que depois de alguns anos também perdeu Trevor de modo repentino. Hoje, ainda muito triste, ele está de novo na lista de espera para um novo cão, consciente que, caso seja contemplado, uma nova fase vai se iniciar em sua vida. 

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Amor de Bicho: Próximos capítulos

Nos seguintes, as histórias dessas pessoas são detalhadamente exploradas, revelando o vínculo profundo e significativo entre eles e seus guias, além de seus sonhos e aspirações. A série também aborda a importância da acessibilidade e inclusão, bem como a complexidade do treinamento de cães-guia. Destacam-se as particularidades de cada parceria, as nuances das interações diárias e a essencial contribuição desses animais, que transcende a assistência prática no dia a dia.

“Amor de Bicho” é produzida pela Duplamente Filmes e Pontos de Fuga, com coprodução da RioFilme. A música tema que embala os episódios, intitulada “Mariana”, é composta e interpretada por Yamandu Costa. Os seis episódios da segunda temporada da série “Amor de Bicho” já estão disponíveis no YouTube.

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Rafael F. Carpi

Editor na Jornalista Inclusivo e na PCD Dataverso. Formado em Comunicação Social (2006), foi repórter, assessor de imprensa, executivo de contas e fotógrafo. É consultor em inclusão, ativista dedicado aos direitos da pessoa com deficiência, e redator na equipe Dando Flor e na Pachamen Editoria.

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