Participar importa: Os 2 principais componentes da participação

Irmãos, com ukulele, com inscrição Attendance e envolvimento, ilustra Participar importa. Descrição na legenda.
Descrição da imagem #PraCegoVer: Para ilustrar o artigo “Participar importa: Conheça os 2 principais componentes da participação”, fotografia colorida em ambiente interno, com duas pessoas. Logo no topo está escrito: Attendance & Envolvimento. Na imagem, à esquerda está a Duda, criança de pele branca e cabelos loiros cacheados. Usa laço azul na cabeça e vestido com listras azul e rosa. Está sorrindo e segurando um ukulele (instrumento havaiano de cordas) com a mão direita, e com a esquerda segura o braço do irmão, Vitor. Ele é mais velho que ela, tem pele branca e cabelos pretos, com paralisia cerebral nível V. Usa camiseta azul e está sorrindo. Créditos: Acervo pessoal/ Carolina Nunes

Mais que uma afirmação, 'participar importa' é como um mantra para as pessoas com deficiência

Em seu novo artigo para o Jornalista Inclusivo, a fisio Carol Nunes apresenta os 2 principais componentes da participação: “ATTENDANCE” & “ENVOLVIMENTO”

Participar importa. Começo meu texto com essa frase que temos repetido tanto, em tantos contextos e espaços. Essa frase que se fez mantra para tantas crianças, adolescentes e adultos com deficiência. Que se faz presente no dia a dia das famílias, amigos e profissionais envolvidos com a pessoa com deficiência. Essa frase que precisa ser ecoada todo dia, a todo momento, para chegar a todos os cantos do mundo, a todas as pessoas do mundo.

Mas afinal, o que queremos mostrar quando afirmamos que participar importa? 

Publicidade

Vamos começar definindo participação. Participação é um substantivo feminino com origem do latim, e significa ação ou efeito de participar, de fazer parte de alguma coisa. Alguns sinônimos também colocam a participação como atuação, ação, atividade, presença, operação, cooperação, trabalho e laboração. Ou seja, é um termo que se refere à uma ação ativa, que envolve o próprio indivíduo. 

Para haver participação são necessários dois componentes principais. O ATTENDANCE (comparecimento, presença, acesso) e o ENVOLVIMENTO (fazer parte). O “attendance” é entendido pela presença física na situação, mensurado pela frequência e/ou variedade de atividades nas quais a pessoa participa. É estar presente. E o envolvimento é a “experiência” de participação, incluindo elementos de afeto, motivação e conexão social. É realmente estar envolvido na atividade ou tarefa. 

Criança com deficiência em atendimento, com descrição na legenda de "Participar importa".
Descrição da imagem #PraCegoVer: A fisioterapeuta neurofuncional Carol Nunes, mulher de pele branca e cabelos castanhos, está em atendimento, sentada no tablado com uma criança a sua frente. Carol está com uma perna dobrada, em cima do tablado, e outra para fora, com o pé no chão. Sua mão direita serve de apoio para o cotovelo da criança, e a esquerda segura a cabeça. O bebê tem pele branca e cabelos castanhos claros, usa um tapa olho colorido, chupeta, camiseta e colete brancos, bermuda escura e meias brancas. Carol usa calça azul e jaleco branco. Créditos: Acervo pessoal/ Carolina Nunes

Definindo a participação, conseguimos ter uma representação maior da sua grande importância na vida de todos os indivíduos com ou sem deficiência. E assim parece muito simples. Então, se é importante, participe. Mas nem tudo é tão simples. 

O porquê ressaltamos tanto e, tantas vezes, que participar importa, é para chamar a atenção para as barreiras que são impostas às pessoas com deficiência, para que elas acessem sua participação de direito. E falando em barreiras, precisamos falar sobre acessibilidade.

A primeira acessibilidade que vamos conversar é a acessibilidade física. Acredito que seja o tipo de acessibilidade que a maioria das pessoas está mais habituada a ouvir. São as modificações estruturais, físicas e arquitetônicas necessárias para que todas as pessoas tenham acesso aos lugares e serviços. São obrigatórias em prédios e serviços públicos, mesmo que nem sempre efetivas ou respeitadas. 

Mulher cadeirante chamando o elevador, com descrição na legenda de "Participar importa".
Descrição da imagem #PraCegoVer: Fotografia colorida em área interna com duas pessoas. Á esquerda, uma pessoa de pele branca está em pé, usando tênis, calça cor mostarda e camiseta azul, segurando nas manoplas da cadeira de rodas que está empurrando. Seu rosto não aparece. Sentada na cadeira de rodas, há uma jovem mulher de pele branca e cabelos loiros. Usa calça jeans e blusa roxa. Ela está apertando o botão de chamada do elevador, e sorrindo. Créditos: @pressfoto/ Freepik

Alguns exemplos de acessibilidade física são as rampas de acesso, corrimãos, elevadores, portas de correr, corredores largos, banheiros adaptados, solo plano, piso antiderrapante, piso com relevo para pessoas cegas, vagas exclusivas em frente ou o mais próximo possível ao acesso, entre outras várias que podemos listar aqui. 

A acessibilidade física é o mínimo que deve ser feito para garantir o acesso aos lugares e serviços contidos na comunidade. É ela que permite o comparecimento independente dos indivíduos. Mas a acessibilidade física não é a única forma de acessibilidade existente. Tão pouco a mais importante. 

Participar importa Carol Nunes Acessibilidade fisica Participar importa: Os 2 principais componentes da participação
Descrição da imagem #PraCegoVer: Fotografia colorida, em ambiente interno, com uma pesso em cadeira de rodas. Na imagem, de costas para a foto, um jovem de pele clara e cabelos pretos está parado, em frente a uma escada. A pessoa está com as mãos nos aros das rodas da cadeira, e usa camisa azul. Créditos: Shutterstock

Outra forma muito importante de acessibilidade, acredito até que mais importante que a acessibilidade física, é a ATITUDINAL. Acessibilidade atitudinal pode ser definida como o conjunto de práticas interpessoais que se traduzem em condutas no sentido de diminuir diferenças e eliminar barreiras sociais entre as pessoas. Esta dimensão da acessibilidade merece atenção especial, pois tão importante quanto ter “as coisas” acessíveis, é que as pessoas tenham atitudes acessíveis. Muitas vezes, por não saber o que fazer diante de uma situação nova pode-se não perceber o outro, ou ter ações que não favorecem a inclusão. 

“As barreiras atitudinais são barreiras impostas por pessoas, e só depende da gente derrubá-las.”

Cadeirante recebendo ajuda para subir escada, com descrição na legenda.
Descrição da imagem #PraCegoVer: Fotografia colorida em área externa com duas pessoas. Em frente a escada, uma pessoa em cadeira de rodas, com as duas rodas frontais em cima do primeiro degrau da escada. Atrás da cadeira, outra pessoa com pele branca está prestando o auxílio. Ambos estão de costas e seus rostos não aparecem. Créditos: @kuprevich/ Freepik

Acredito que a acessibilidade atitudinal seja a mais importante justamente por minimizar as diferenças sociais existentes. Nós podemos nos deparar com um lugar sem acessibilidade física em que a pessoa não consiga acessar um serviço, mas se as pessoas ao redor forem acessíveis e perceberem a barreira, elas poderão, em conjunto, pensar soluções e tornar o acesso possível. Independente da solução escolhida. 

Como exemplos de acessibilidade atitudinal, podemos observar desde pessoas se oferecendo para “dar a mão” ou “o ombro” para facilitar a mobilidade, pessoas empurrando cadeiras de rodas, até mesmo pessoas que lutam pelos direitos das pessoas com deficiência e exigem que leis sejam cumpridas. Enfim, a acessibilidade atitudinal é muito mais ampla que a física. 

"Participar importa" é como um "mantra" para as pessoas com deficiência:

Reproduzir vídeo

O vídeo mostra a adaptação de um carrinho elétrico convencional pelo programa de mobilidade motorizada precoce ‘Go Baby Go ‘, para um paciente de 2 anos, com paralisia cerebral.

O programa consiste, basicamente, em adaptar carrinhos elétricos encontrados em lojas de brinquedos, e torná-los um instrumento fácil e funcional para crianças pequenas manejarem e se movimentarem. 

Na ocasião, com auxílio do Bruno, artista que faz esculturas em metal e tem conhecimentos em eletromecânica, foi realizada a troca do acelerador de pé para a mão, e uma adaptação estrutural de baixo custo, com canos PVC e flutuadores (boias tipo espaguete).

O Go Baby Go pode ser utilizado até para crianças menores, e o mais precoce possível, como alternativa para a cadeiras de rodas motorizadas para bebês e crianças, que tem um custo extremamente alto.

Este já foi tema de outro artigo da físio Carol Nunes, e que você pode ler aqui: Mobilidade independente: Quando começa? | Sem Filtro & Com Afeto.

Outro ponto positivo da acessibilidade atitudinal é o envolvimento interpessoal. Para auxiliar uma pessoa com dificuldade é preciso se aproximar desta pessoa e ouvir a sua necessidade. Ninguém nasce sabendo e é natural que dúvidas surjam quando uma situação inédita se apresenta. Portanto, a melhor forma de sanar uma dúvida quanto a preferência ou opinião de alguém é perguntando para a pessoa. E com pessoas com deficiência não é diferente. Perguntar é gentil, demonstra atenção e respeito, além de evitar constrangimentos e acidentes. Isso acaba criando interações interpessoais muito importantes na construção de seres humanos acessíveis, que enxergam a necessidade e importância da acessibilidade.

Publicidade

Outros exemplos de acessibilidade atitudinal são auxílios mecânicos básicos como empurrar a cadeira ou oferecer um apoio. Quando uma empresa se dispõe a fazer adaptações estruturais para atender a demanda de seu funcionário. Oferecer meios de comunicação alternativa para compreender o que eu a pessoa está tentando expressar. A Lei de Cotas no mercado de trabalho. Luta por políticas públicas de qualidade. Inclusão escolar. Tecnologias assistivas e muitos outros exemplos. 

Jovem rapaz ajudando cadeirante na biblioteca, com descrição na legenda.
Descrição da imagem #PraCegoVer: Fotografia colorida, em ambiente interno, com duas pessoas em uma biblioteca. À esquerda, uma jovem mulher de pele branca e cabelos pretos curtos está sentada em uma cadeira de rodas. Ela usa calça jeans e camisa xadrez, tem um livro em seu colo, e fones de ouvido pendurado no pescoço. Está sorrindo e olhando para o alto. Ao seu lado, um jovem rapaz de pele preta e cabelos Black baixos, está apontando para um livro no alto da estante, interagindo com a cadeirante. Ele usa óculos de grau, camisa xadrez e calça jeans. Tem uma mochila nas costas e também sorri. Créditos: @seventyfour/ Freepik

A acessibilidade é o primeiro passo para que todas as pessoas com deficiência possam estar presentes e envolvidas na comunidade. É o primeiro passo para sua efetiva participação social, contribuindo com sua comunidade e com a construção de uma sociedade mais diversa e plural. É o primeiro passo para que todas as crianças possam crescer junto com a diversidade e aprender sobre tal realidade, para que o processo de desconstrução do preconceito seja cada vez mais leve e natural. 

Se participar é importante para mim, é importante para todos. Participar não é apenas importante, é um direito fundamental de todo ser humano. É na participação que ocupamos o nosso lugar na sociedade. Onde tomamos as rédeas de nossas vidas. Onde somos quem realmente somos, e quem amamos ser. E todo ser humano precisa ser respeitado e encorajado a buscar seus sonhos. A viver feliz! 

E essa frase ainda será repetida por muito tempo. Repitam comigo:

PARTICIPAR IMPORTA!

Carol Nunes
Carol Nunes

Formada em Fisioterapia pela Unesp, Ana Carolina Navarro Nunes tem especialização Neurofuncional com enfoque Neuropediatrico. É coordenadora do setor Neurofuncional da clínica Fisiocenter, em Itu (SP), onde também atende como Fisioterapeuta. Aqui no site Jornalista Inclusivo ela é responsável pelo espaço "Sem Filtro & Com Afeto".

Publicações
• Siga nas redes sociais:

Deixe um comentário

Este post tem um comentário