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Sobre as Próprias Pernas

Certa vez fui questionada sobre o impacto que uma vida sentada exerce sobre um indivíduo cadeirante. Isso me fez refletir que há um pensamento muito enraizado de que pessoas com deficiência motora e que utilizam cadeiras de rodas não são capazes de ficar em pé, e passam suas vidas sentadas. O que me levou a uma segunda reflexão, que realmente existem cadeirantes que quase que exclusivamente realizam sua rotina sentados.

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Descrição da Imagem #PraCegoVer: Fotografia de um homem e uma criança, em que ambos vestem calças em tons de marrom claro e camisetas em tons de azul. A criança está usando um dispositivo que é um treinador de marcha, que sustenta o seu corpo para ficar em pé e se locomover. O homem está ao seu lado, levemente curvado, apoiando-se com as mãos em seus joelhos. Em segundo plano há uma grande área verde, com arvores e um campo gramado. Fim da descrição | Foto: Reprodução

Você sabe da importância de ficar em pé, e os benefícios na saúde das pessoas com deficiência motora?

Em seu novo artigo, a Fisioterapeuta Neurofuncional Carol Nunes mostra não só isso, mas também as possíveis formas de ficar Sobre as Próprias Pernas

Certa vez fui questionada sobre o impacto que uma vida sentada exerce sobre um indivíduo cadeirante. Isso me fez refletir que há um pensamento muito enraizado de que pessoas com deficiência motora e que utilizam cadeiras de rodas não são capazes de ficar em pé, e passam suas vidas sentadas. O que me levou a uma segunda reflexão, que realmente existem cadeirantes que quase que exclusivamente realizam sua rotina sentidos. 

Após ampliar esta discussão em minha mente, conclui que é urgente a necessidade de apresentarmos informações sobre a importância de toda pessoa com deficiência física (em qualquer nível) realizar a posição em pé, sobre as próprias pernas. E também apresentarmos os meios para que isso seja possível. 

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Descrição da Imagem #PraCegoVer: Fotografia de uma criança pequena, sexo masculino, de pele branca e cabelo castanho claro. Ele está em pé, fixado ao equipamento Parapodium, de madeira clara, encosto de cabeça na cor azul, e base azul. Para realizar o ortostatismo, tem faixas fixando as articulações em joelhos, quadril e peitoral. Ele está com a cabeça de lado, e braços levemente abertos. E veste calça cinza e blusa listrada azul e branca de mangas cumpridas. Fim da descrição | Foto: Arquivo/Carol Nunes

Sobre as Próprias Pernas: Fatores Positivos

Vou mencionar alguns benefícios muito relevantes que a postura em pé nos proporciona.

    • Aumento da densidade mineral óssea

Quando nos mantemos em pé, a ação da gravidade age diretamente sobre nossos ossos e articulações envolvidas na manutenção desta postura. Aumentando a descarga de peso sobre essas estruturas. 

Esse aumento do peso nos ossos dos membros inferiores faz com que a sua densidade mineral aumente, tornando-nos mais fortes e resistentes, com diminuição no risco de fraturas e deformidades. 

    • Prevenção de escaras 

A postura em pé se mostra muito importante na prevenção de escaras na pele, que ocorrem pelos longos períodos que o indivíduo permanece na posição sentada ou deitada. Ela alivia a pressão exercida pelas proeminências ósseas sobre os tecidos moles. 

Escaras são lesões de difícil cicatrização, justamente pela frequência da compressão exercida na região, que diminui circulação sanguínea e regeneração tecidual. É necessário que o tecido mole tenha períodos sem receber pressão para que possa se renovar e regenerar com a frequência necessária. 

As escaras além de porta de entrada para processos infecciosos, também podem ser bastante doloridas. Isso interfere diretamente na qualidade de vida do indivíduo e na execução das tarefas de sua rotina. 

    • Prevenção de luxação de quadril

Em crianças em desenvolvimento, é muito importante se manter em pé, sobre as próprias pernas, para que a gravidade atue, assim como na densidade óssea, modelando seus ossos e articulações. 

O aumento da descarga de peso em quadris é responsável pela ‘formação do acetábulo, que é a cavidade onde o fêmur se encaixa com a pelve. Esse encaixe perfeito dos quadris aumenta sua estabilidade e previne luxações e sublocações dos mesmos. 

Mesmo em casos mais graves, onde não conseguimos evitar a intervenção cirúrgica, nós conseguimos minimizar os desalinhamentos, tornando a cirurgia menos agressiva, e com um pós operatório mais confortável. 

Para adultos que tiveram a modelagem dos quadris completa e apresentaram a deficiência física mais tardiamente, também é importante se manter sobre as próprias pernas e prevenir subluxações. 

Longos períodos sentado não proporcionam encaixe completo na articulação. E considerando a fraqueza muscular importante, a estabilidade também se encontra comprometida. Aumentando riscos de subluxações de quadris em manobras de transferências malsucedidas, possíveis quedas, manuseios para higiene, entre outras situações. 

Então é muito necessário que os adultos também fiquem em pé. Aumentando co-ativação muscular e mantendo quadris encaixados por mais tempo. 

    • Prevenção de deformidades ortopédicas 

Quando mantemos a postura em pé, colocamos nossos músculos em posição de alongamento ativo e equilíbrio dos pares musculares. Assim conseguimos manter a musculatura mais alongada e um melhor alinhamento biomecânico. 

Isto é importantíssimo quando pensamos em deformidades ortopédicas. Este alinhamento previne ou diminui o aparecimento de encurtamentos musculares importantes, contraturas e mesmo deformidades ósseas. 

Entre as deformidades mais comuns podemos citar pés equinos, semi-flexão de joelhos, luxação de quadris, rotações de fêmures e escolioses. 

Podemos citar rapidamente mais alguns benefícios de se manter em pé: 

    • Melhora no sistema cardiovascular;
    • Melhora a respiração e expansão pulmonar;
    • Melhora padrão de sono;
    • Melhora na digestão e alívio de gases;
    • Melhora na participação social. 

A melhora na fisiologia acarreta diretamente melhora no desempenho motor. 

LEGAL! MAS E AGORA?!

Que a posição em pé é maravilhosa nós já entendemos. Mas e as pessoas que não conseguem se manter em pé sozinhas? Como elas poderão se manter em pé sozinhas, dentro de suas rotinas e executando suas tarefas? 

Para isso nós contamos com vários dispositivos que mantém as articulações estabilizadas e possibilitam que o indivíduo permaneça em pé com segurança. E isso é maravilhoso! 

Os dispositivos variam de acordo com a necessidade de sustentação do indivíduo. Algumas pessoas precisaram de muita sustentação e outras de uma sustentação menor. Por isso é muito importante uma avaliação precisa, realizada por um terapeuta, para identificarmos a real necessidade dessa pessoa e realizarmos a prescrição do dispositivo mais adequado. Proporcionando maior participação na posição em pé. 

QUAIS SÃO ESSES DISPOSITIVOS?

Quando falamos em dispositivos auxiliares para manutenção em pé, podemos considerar qualquer equipamento que auxilie a pessoa a se manter em pé, sobre as próprias pernas. 

Podemos considerar bengalas, muletas, andadores, sustentações parciais de peso, talas, órteses, próteses, stands, Parapodium e qualquer outro dispositivo que possibilite está postura. 

Mas iremos conversar sobre alguns específicos. 

• Tala Extensora de Joelho
Sobre as próprias pernas
Descrição da Imagem #PraCegoVer: Fotografia com três pessoas. Do lado esquerdo há uma mulher de pele branca e cabelo preto bem preso. Ela usa óculos de grau, máscara hospitalar e veste bata amarela com flores pretas, calça jens azul clara e sapatilha preta. No centro há uma paciente que está de costas, segurando no espaldar e usando tala extensora de joelhos na cor preta, nas duas pernas. Ela tem cabelo curto e escuro, veste blusa listrada branca e preta, e calça azul. Ao seu lado está a fisioterapeuta Carol, posicionando o quadril da paciente. Carol tem pele branca, e cabelo castanho longo, que está preso. Ela usa máscara hospitalar azul, jaleco branco por cima de uma blusa escura de mangas cumpridas, calça jeans azul escura e sapatilha azul clara. Fim da descrição | Foto: Arquivo/Carol Nunes

As talas extensoras de joelhos são dispositivos, geralmente em lona, com hastes metálicas que mantém os joelhos estendidos e estabilizados, para que o indivíduo possa manter a postura em pé. Muito utilizada por pessoas que não conseguem manter essa extensão ativamente e necessitam de estabilização articular. 

Muito comum para paraplégicos, tetraplégico, paralisia cerebral níveis GMFCS III, IV e V, mielomeningocele, TCE e qualquer afecção que altere a biomecânica da extensão dos joelhos. 

Pode ser associada a outros tipos de suporte, quando o indivíduo demandar. 

• Parapodium
Sobre as próprias pernas
Descrição da Imagem #PraCegoVer: Duas fotografias da mesma criança, realizando a mesma tarefa, mas em ângulos diferentes. É uma criança pequena, do sexo masculino, de pele branca e cabelo castanho claro. Ele está em pé, fixado ao equipamento Parapodium, de madeira clara, encosto de cabeça na cor azul, e base azul. A sua frente, como parte do dispositivo, existe uma mesa que é chamada de bandeja de apoio com um carrinho de brinquedo. Para realizar o ortostatismo, tem faixas fixando as articulações em joelhos, quadril e peitoral. Ele está com a cabeça de lado, e braços levemente abertos. E veste calça cinza e blusa listrada azul e branca de mangas cumpridas. Fim da descrição | Foto: Arquivo/Carol Nunes

O Parapodium é um equipamento utilizado para auxiliar pessoas a manterem sua postura ortostática. Ele garante que a postura seja mantida de forma simétrica, com integridade dos tecidos. 

Parapodium não é um dispositivo completamente passivo. Ele exige de seu usuário o esforço de manter sua musculatura posicionada e ativa. É uma troca de interação entre o usuário e o aparelho. 

Existem inúmeros modelos no mercado para manter-se sobre as próprias pernas. A escolha dependerá da severidade de seu quadro motor. 

O equipamento consiste em uma estrutura que apresenta travas na altura das articulações de quadris e joelhos, garantindo estabilização completa dos membros inferiores em extensão. Alguns modelos apresentam suporte para tronco e cabeça, de acordo com a necessidade. Enquanto que outros modelos também possuem bandeja de apoio para membros superiores, para realização de atividades manuais. 

Muito popular entre as crianças e adolescentes. 

• Prancha Ortostática

Sobre as próprias pernas
Descrição da Imagem #PraCegoVer: Homem branco vestindo camiseta regata preta e descalço está em uma prancha ortostática, levemente inclinada, enquanto realiza uma atividade com os membros superiores. Ele usa luvas prendendo suas mãos a uma barra. Sobre suas pernas e quadril há almofadas azuis com faixas de velcro que fixam as articulações, e também com um faixa na região peitoral. A sua frente é possível ver dois braços, e ao lado há um tablado e outros equipamentos de fisioterapia. Fim da descrição | Foto: Arquivo/ RFerraz

Também conhecida como mesa ortostática. É uma maca adaptada com amarras, também na altura das articulações, que são utilizadas para segurar o corpo do paciente durante sua mudança de horizontal para vertical, fornecendo apoio mecânico. 

Por meio de uma manivela, manual ou elétrica, a prancha vai gradativamente elevando seu grau de inclinação, podendo levar várias sessões até atingir a posição do ortostatismo completo.  Muito comum para adultos, pacientes maiores e mais pesados, pela facilidade de posicionamento.

A prancha ortostática também é indicada para pacientes hipersensíveis as mudanças posturais, pois ocorre gradativamente (ex.: pacientes que passaram por longo período acamado, pacientes com trauma craniano severo, doenças degenerativas que comprometam o sistema regulatório, alterações vestibulares, entre outros). 

• Andadores e Treinadores de Marcha

E por último os andadores. Quando falamos em ortostatismo com andadores e treinadores de marcha, estamos falando de ortostatismo dinâmico. É um nível mais elevado da manutenção da postura em pé. 

Após conseguirmos nos manter em pé, o próximo passo é conseguirmos nos movimentar ativamente em pé. Recebendo todos impactos citados anteriormente. Os sistemas de ajustes estarão ativos por todo o período. 

Assim, conseguindo aproveitar todos os benefícios de se estar em pé, precisamos colocá-los dentro de uma rotina e da participação do indivíduo. 

Para pacientes que não apresentam comprometimento em nível medular, nós podemos treinar, além das posturas estáticas em pé, deslocamentos dinâmicos e ativos nessa mesma posição. 

Para isso contamos com andadores muito modernos, com sistemas de estabilização de tronco e controle de movimentos que possibilitam que pessoas com deficiências motoras graves se movam em pé ativamente.

Seria o último nível de estabilização em pé. A estabilização ativa e participativa. 

O QUE DISPOSITIVOS TÃO DISTINTOS TÊM EM COMUM?

O que todos esses dispositivos tem em comum é o objetivo de estabilizar o indivíduo em pé, com segurança, e promover maior participação social:

  • É promover uma maior interação de seu usuário com sua família, seus amigos, seus clientes e com a sociedade no geral.
  • É promover maior autonomia e maior desenvolvimento do indivíduo quanto pessoa.
  • É trazer a pessoa com deficiência física para o nível mais alto de estabilização e colocá-la perante a sociedade como ser funcional e participativo.
  • É promover o bem estar físico, mental e social tão desejado por todos nós. 

Não é só sobre estar em pé. É sobre estar em pé sobre as próprias pernas!! 

Carol Nunes

Carol Nunes

Formada em Fisioterapia, Ana Carolina tem especialização Neurofuncional com enfoque Neuropediatrico. É coordenadora do setor Neurofuncional da clínica Fisiocenter, em Itu (SP), onde atende como Fisioterapeuta. No site Jornalista Inclusivo é responsável pelo espaço "Sem Filtro & Com Afeto".

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