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Carta aberta às Pessoas com Deficiência

Imagem de uma carta aberta às pessoas com deficiência

Descrição da Imagem #PraCegoVer: Imagem que ilustra o artigo Carta aberta às pessoas com deficiência é a foto de um envelope azul, que está aberto, com um pedaço de uma carta para fora. No topo da carta tem uma foto redonda da autora do texto. Ela tem pele branca, cabelos longos castanhos, e veste jaleco branco. Logo abaixo está escrito Carol Nunes, e mais abaixo a seguinte frase: A todas as pessoas com deficiência. Na sequência é possível enxergar o início do conteúdo da carta, em letra de mão. Imagem: Art by RFerraz 

Fisioterapeuta escreve carta em homenagem ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência

Carol Nunes aproveita sua coluna Sem Filtro & Com Afeto para expressar o sentimento de gratidão pelo crescimento como ser humano. Confira:

No dia 21 de setembro celebramos o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência (Lei Nº 11.133, de 14 de julho de 2005). E a aproximação dessa data gerou em mim uma reflexão. De como as pessoas com deficiência foram e são importantes na minha construção como ser humano. Então resolvi que preciso expressar a minha gratidão, e por isso escrevi essa carta aberta a todos vocês. 

Primeiramente, gostaria de agradecer a todas as desconstruções que vocês ocasionaram em mim. Quando um dia, lá no passado, eu acreditava que na minha profissão eu seria uma pessoa boa, que eu ajudaria pessoas com vidas difíceis a terem uma qualidade de vida melhor. Eu não sabia de nada. Eu não sabia que a vida que seria melhor seria a minha! Eu ainda estava tomada por um preconceito, uma herança vertical que eu recebi da sociedade que dizia que pessoas com deficiência são coitadas e que devíamos ter compaixão. Eu realmente não sabia de nada.

Hoje eu olho pra trás e tenho muito orgulho em saber que esse pensamento ficou lá no passado. Eu tenho orgulho em poder afirmar que a gente não sabe nada da vida. Que quanto mais eu vivo com as diferentes deficiências, mais eu percebo como somos iguais. Em tudo! 

Quando eu pergunto para um paciente meu, qual é o seu objetivo, eu descubro que são objetivos idênticos aos meus. Como nossas vidas caminham para o mesmo lugar. Como não são vidas sofridas, isso era apenas o que me fizeram acreditar. Como são vidas vividas. Vidas comuns, com desejos comuns. E como eu sou grata por ter desconstruído esse preconceito junto a vocês. Ninguém me chamou para uma conversa e me explicou sobre o assunto. A ficha foi caindo naturalmente pelo simples fato de aceitar as diferenças, de conviver com as diferenças e de amar cada coisa incrível que um ser humano pode fazer.

Três fotos ilustram a Carta aberta às Pessoas com Deficiência.
Descrição da Imagem #PraCegoVer: Três fotos ilustram a Carta aberta às Pessoas com Deficiência. A primeira foto mostra a fisioterapeuta e autora deste artigo, Carol Nunes com uma criança no colo, dentro da piscina em sessão de fisioterapia aquática. Carol é uma mulher de pele branca e cabelos castanhos, que estão presos, e veste maiô escuro. Ela e a criança, Ana Bela, estão se olhando. A criança tem pele branca, veste maiô rosa e toca escura. Na fotografia do meio, Carol está agachada com um joelho no chão, e abraçada ao João Pedro, um menino branco de cabelos loiros. Os dois estão sorrindo. Ela veste calça escura e jaleco branco. Na última fotografia, Carol usa um protetor transparente no rosto, está sorrindo e com o Lucas no colo, uma criança de cabelos loiros e curtos. Ele tem pele branca, veste camiseta amarela e macacão de listras brancas e azuis. Foto: Arquivo pessoal

Carta aberta às pessoas com deficiência: Desconstrução!

Obrigada pela desconstrução. Eu sou um ser humano em construção e sem a diversidade humana a minha base seria muito rasa, muito instável. Como eu poderia viver em um mundo diferente conhecendo apenas o meu igual? Obrigada por sermos diferentes na igualdade. 

Obrigada por me fazerem entender que anjos na terra não existem. E que super-heróis são personagens de filmes de Hollywood. Que o tão amado exemplo de superação não existe. É um modelo heroico criado pela sociedade para dar uma medalha de honra ao mérito às pessoas que precisam lutar contra as barreiras criadas por essa mesma sociedade. Como se fosse motivo de orgulho ignorar preconceito e falta de acessibilidade diariamente. 

Não, não existem modelos de superação. Existe uma sociedade “excluísta” e inacessível, que não se importa com o diferente. E que homenageia o excluído como forma de amenizar o constrangimento que ela mesma causa. Como se títulos apagassem feridas. Não existem heróis. Obrigada por me fazerem entender que títulos são fardos. E ninguém precisa disso. A gente só precisa de respeito e amor. 

Muito, mas muito obrigada mesmo por me mostrarem que não existem anjinhos. Que crianças com deficiência não são anjinhos. Estão longe de ser. São apenas crianças comuns. Que choram, fazem birra, respondem os pais na frente de outras pessoas, que muitas vezes não querem frequentar terapias ou ir à escola, que pedem presentes caros e que colocam os pais em saias justas. Mas que também são amorosas, são afetuosas, divertidas e únicas. São crianças, apenas crianças. Não são anjos. E não me digam que é só um jeitinho fofo de se referir a elas. Anjos e super heróis não são humanos! São formas de desumanizar pessoas com palavras fofinhas. Muito obrigada por me mostrarem que por trás de palavras fofinhas pode existir muito preconceito e pouco afeto. 

Carta aberta as Pessoas com Deficiencia1
Descrição da Imagem #PraCegoVer: Três fotos com as mesmas três pessoas na sequência. A primeira mostra uma mulher de pele parda, cabelos pretos e presos, sorrindo e olhando para a câmera. Ela se chama Marta, e está sentada. Ao seu lado está seu filho Murilo, um jovem garoto de pele branca, que está com o braço esquerdo por cima dos ombros da fisioterapeuta Carol. Ele veste bermuda marrom clara e camiseta de gola polo azul. A Carol veste calça jeans e jaleco branco, e segura uma sacola colorida de papel. Na foto seguinte o Murilo está beijando o rosto da Carol, e terceira foto a Carol está beijando o rosto do Murilo. Foto: Arquivo pessoal

Uma carta aberta às pessoas com deficiência: Pessoas reais!

Muito obrigada por me mostrarem que normal é apenas um ponto de vista. Normal é o que é a maioria naquela situação. Não existe o normal. Existe o real. E se você não é igual a mim não significa que alguém seja incompatível. Significa apenas que somos diferentes! Eu não gosto de Coca-Cola igual a grande maioria das pessoas, mas isso não me faz me sentir anormal. Não me faz ser anormal. Me faz ser única e diferente naquele contexto.

“A minha personalidade me define”

Obrigada por escancarar na minha cara, que a vida não gira em torno da deficiência. Que as preferências esportivas, musicais, de roupas e lazer não giram em torno das possibilidades e das permissividades. Elas giram em torno única e exclusivamente da personalidade. A deficiência é coadjuvante no filme da vida. Muito obrigada por readequarem o meu dicionário. 

Muito obrigada do fundo do meu coração por me permitirem entender que nenhuma vida vale mais que a outra. Não existem vidas que valem a pena serem vividas. Que vidas são vividas. E ponto. Quem ninguém na face da terra pode dizer o que merece ser vivo, o que merece ser amado e o que merece estar inserido. Que nenhuma pessoa vem ao mundo para preencher nenhuma lacuna, nenhum espaço que faltou. Que pessoas vêm ao mundo para aumentar os espaços de afeto, de amor. Para trocar experiências e participar da construção umas das outras. Que não existe nada sobre nós sem nós. 

Eu passei a ouvir pessoas com deficiência falando sobre pessoas com deficiência. Falando sobre acessibilidade ou a falta dela. Falando sobre capacitismo. Me mostrando que sim, eu já fui capacitista e nem imaginava isso. Obrigada por me tirarem da minha zona de conforto e me permitirem mudar, combater o preconceito e evoluir como pessoa. Repito, sou um ser humano em construção. 

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Descrição da Imagem #PraCegoVer: Sobre um tablado utilizado em sessões de fisioterapia estão três pessoas. A Carol, de cabelos presos e máscara hospitalar está segurando o celular que fez essa fotografia. Ela veste jaleco branco e calça jeans clara. Ao seu lado, deitado de bruços está o Vitor, um jovem de pele branca e cabelos pretos. E no outro canto, também deitada de bruços e apoiada sobre os cotovelos está sua irmã, a Duda. Ela é uma menina de cabelos loiros e cacheados, de pela branca, e está olhando para frente. Foto: Arquivo pessoal

Declaração de amor e gratidão

Obrigada por diversas vezes me fazerem sentir vontade de pegar todos os livros da faculdade e enfiar no lixo pois não me ensinaram o principal. E muito obrigada por terem assumido o papel de professores e mostrado o que realmente é relevante na fisioterapia, nos objetivos terapêuticos e nas propostas de intervenção. Vocês praticamente pegaram a minha mão e me disseram, vamos construir uma fisioterapeuta juntos! Obrigada por darem sentido a minha profissão. 

E finalmente, diante de tudo, obrigada por vocês não desistirem de nós! Não desistirem de nos ensinar sobre diversidade, sobre afeto. Vocês ainda acreditam em nós. Acreditam que as pessoas irão sair da zona de conforto e superar seus preconceitos. Vocês não desistiram de nos ensinar como é importante sermos nós mesmos, mesmo diante das maiores e piores dificuldades. Obrigada por me ensinarem como me amar do jeito que eu sou. Que o diferente é o belo. Que o diferente é o charme, é o especial. Obrigada por nos amarem e entenderem que um dia nos libertaremos da nossa prisão. Uma cadeira de rodas não te prende, mas o preconceito paralisa!

“Obrigada a todas as pessoas com deficiência que fazem parte da minha vida, e que farão. Vocês são a minha aldeia, a minha escola e a minha rede!!!! Gratidão e amor!”

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Carol Nunes

Carol Nunes

Formada em Fisioterapia, Ana Carolina tem especialização Neurofuncional com enfoque Neuropediatrico. É coordenadora do setor Neurofuncional da clínica Fisiocenter, em Itu (SP), onde atende como Fisioterapeuta. No site Jornalista Inclusivo é responsável pelo espaço "Sem Filtro & Com Afeto".

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