Realidade virtual na reabilitação de pessoas amputadas acelera processo de adaptação, diz estudo

Pessoa em reabilitação durante sessão de realidade virtual na reabilitação de pessoas amputadas. (Realidade virtual na reabilitação de pessoas amputadas)
(Realidade virtual na reabilitação de pessoas amputadas) Descrição da imagem #PraCegoVer: Foto colorida, em ambiente interno, de pessoa com perna esquerda amputada que participou do estudo. É branca, está sentada, usa equipamento de realidade virtual e colete que envia estímulos ao paciente. Na região da amputação aparece a imagem de uma prótese virtual. Ao seu lado, o computador utilizado no protocolo. (Créditos: Vídeo promocional Unifesp/25 anos. Imagem: Edição de arte)

Pesquisadoras e pesquisadores da Unifesp publicam artigo científico propondo novo sistema de reabilitação com prótese virtual associada à estimulação vibro-tátil

Sensação de dor, formigamento e até coceiras em membros que tenham sido amputados são relatos comuns e que fazem parte do processo de reabilitação. Além disso, a adaptação a próteses de pernas, por exemplo, requer tempo e muita dedicação da pessoa com amputação e da equipe de fisioterapia.

Pensando nesse público, pesquisadoras e pesquisadores da disciplina de Neurociência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Laboratório de Neuroengenharia e Neurocognição, em parceria com o Instituto Lucy Montoro (SJC), publicaram um artigo científico na revista Human Neuroscience propondo novo sistema e protocolo de reabilitação para pessoas com *amputação transfemoral, baseado no controle de uma prótese virtual dentro de um ambiente de realidade virtual.

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    Boa leitura!

    *Amputação transfemoral é retirada de parte da perna entre as articulaçoes do joelho e do quadril.

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    Realidade virtual na reabilitação

    O objetivo do trabalho foi avaliar se pessoas com amputação transfemoral poderiam perceber uma prótese virtual como parte do próprio corpo – quando ocorre a apropriação neurocognitiva – para acelerar o processo de protetização. Atualmente, sabe-se que a apropriação neurocognitiva de uma prótese é um ponto chave no processo de reabilitação e adaptação ao uso do membro protético, trazendo uma série de benefícios para pacientes, tais como:

    • Facilitação do aprendizado e controle mais intuitivo ao uso da prótese;
    • Melhor aceitação psicológica;
    • Restauração do “mapa corporal”;
    • Auxílio no tratamento da dor no membro residual e dor fantasma.

    O pesquisador Jean Faber, coordenador do projeto e professor do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina (EPM), da Unifesp, explica como é funcionamento:

    “Nós desenvolvemos um novo sistema que consiste no registro da atividade muscular do membro residual, a qual é convertida no controle dos movimentos de uma prótese virtual, dentro de um ambiente de realidade virtual em três dimensões e em primeira pessoa. Além disso, associamos, a esse movimento da prótese virtual, padrões de estimulação vibro-tátil nas costas das(os) participantes. Esses estímulos forneciam informação sobre o movimento da prótese, ajudando o voluntário a perceber o controle realizado”, informou.

    Foto colorida, em ambiente interno, mostrando o colete de estimulação vibro-tátil nas costas da pessoa que participou da experiência.
    Descrição da imagem #PraCegoVer: Foto colorida, em ambiente interno, mostrando o colete de estimulação vibro-tátil nas costas da pessoa que participou da experiência. A pessoa aparece sentada e com diversos cabos ligados ao equipamento. (Créditos: Vídeo promocional Unifesp/25 anos. Imagem: Edição de arte)

    Apropriação neurocognitiva

    Karina Rodrigues, primeira autora do artigo e responsável por conduzir a pesquisa que foi tema de seu doutorado defendido ano passado na Unifesp, informa que seis homens e uma mulher com amputação transfemoral traumática, sem uso prévio de prótese, participaram deste trabalho.

    “O protocolo consistiu na realização de seis sessões de treinamento, realizadas duas vezes por semana, com duração de 30 minutos cada. Para avaliar a apropriação neurocognitiva da prótese virtual, foi utilizado um conjunto de medidas — psicofísicas e eletrofisiológicas, além de relatos dos participantes”, detalha Karina.

    Os resultados deste estudo foram publicados no dia 4 de agosto na Human Neuroscience , do grupo Frontiers, no tópico especial Interface Cérebro-Máquina. Além de Karina Rodrigues e Jean Faber, o artigo é assinado por mais sete pesquisadoras(es) brasileiras(os), que são: 

    João Vitor da Silva Moreira, Daniel José Lins Leal Pinheiro, Rodrigo Lantyer Marques Dantas, Thaís Cardoso Santos, João Luiz Vieira Nepomuceno, Maria Angélica Ratier Jajah Nogueira, Esper Abrão Cavalheiro.

    Os principais achados foram publicados abaixo, inclusive com relato de participantes com amputações. Confira:

    Resposta de condutância da pele

    Esta medida eletrofisiológica foi utilizada para avaliar mudanças na atividade do sistema nervoso autônomo simpático, mediante uma ameaça aplicada à prótese dentro do ambiente de realidade virtual. Observou-se um aumento da resposta de condutância da pele quando a prótese virtual foi ameaçada, tanto no início como ao final do treinamento, sendo que, ao final, esta resposta foi de maior magnitude. Este resultado demonstra que as(os) participantes reagiram à ameaça à prótese virtual de maneira similar como reagiriam a uma ameaça ao seu próprio corpo. 

    Efeito congruente cruzado

    Este é um índice calculado a partir de um teste psicofísico baseado no tempo de reação para identificar um estímulo tátil aplicado no próprio corpo da(o)  participante, enquanto observava um estímulo visual dentro do ambiente de realidade virtual. O aumento deste efeito ao fim do treinamento indica uma extensão da representação do espaço peripessoal para incluir a prótese virtual. O espaço peripessoal é uma representação neurocognitiva formada a partir da integração de informações sensoriais relacionadas ao próprio corpo e o espaço logo ao seu redor.

    Capacidade de controle da prótese virtual

    O protocolo de treinamento foi desenhado levando em consideração o aprendizado por condicionamento operante associado ao controle muscular. Desse modo, houve um aumento progressivo da dificuldade para realização das tarefas e controle da prótese virtual. As(os) participantes apresentaram alto desempenho durante todo o treinamento, mesmo com a progressão da dificuldade, o que indica um refinamento no controle dos movimentos.

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    Relato das(os) participantes

    As(Os) participantes relataram elevada percepção de que a prótese virtual pertencia ao próprio corpo e que podiam controlá-la. Essa percepção se manteve ou aumentou ao longo do treinamento para a maioria dos(as) participantes. Um(a) dos(as) participantes, por exemplo, contou que usou as mesmas estratégias para mover a prótese virtual de quando movia seu membro fantasma. Um(a) outro(a) participante relatou que, quando estava imersa(o) no ambiente virtual, além de perceber a prótese virtual se movendo, sentia como se seu membro fantasma também se movesse.

    Resultados e patentes

    A partir desses resultados, as(os) autores mostraram que as(os) participantes se apropriaram neurocognitivamente da prótese virtual, ou seja, perceberam a prótese virtual como parte do próprio corpo. 

    “Este é um estudo de uma série de casos. Ainda são necessárias outras pesquisas com grupo controle, ensaios clínicos controlados e aleatorizados para que esse sistema e protocolo possam ser de fato aplicados na clínica. Contudo, este trabalho estabelece os primeiros direcionamentos na compreensão dos principais mecanismos fisiológicos e princípios neurocognitivos, de forma quantitativa e sistemática, ao longo do processo de reabilitação de pessoas com amputação. Esperamos que, a partir desse estudo, novas pesquisas sejam realizadas para o estabelecimento do método”, complementa Karina Rodrigues.
    Professor e pesquisador Jean Faber - coordenador do projeto, durante entrevista em vídeo. Homem branco com cabelos pretos curtos.
    Descrição da imagem #PraCegoVer: Foto colorida, em ambiente interno, na sala de reabilitação do Lucy Montoro. Imagem mostra o professor e pesquisador Jean Faber, coordenador do projeto, durante entrevista gravada em vídeo institucional. Ele é um homem branco com cabelos pretos curtos, está gesticulando enquanto fala e usa camisa azul e calça clara. Ao fundo, equipamentos de fisioterapia. (Créditos: Vídeo promocional Unifesp/25 anos. Imagem: Edição de arte)

    O projeto já gerou duas patentes e atualmente a pesquisa continua com outras duas vertentes: em uma primeira, as(os) pesquisadores, em parceria com o Grupo de Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC), estão analisando os sinais de eletroencefalografia registrados durante todo o protocolo, os quais ainda podem ser explorados de diferentes formas. Espera-se encontrar algum marcador eletrofisiológico que indique neuroplasticidade ao longo do treinamento. 

    “Em outra frente, em uma parceria com o Departamento de Engenharia Biomédica da Unifesp – campus São José dos Campos, estamos desenvolvendo novas ferramentas computacionais em inteligência artificial para a otimização do reconhecimento das assinaturas da atividade muscular para o controle de uma prótese real”, conclui Jean Faber.


     

    Referência: Rodrigues KA, Moreira JVdS, Pinheiro DJLL, Dantas RLM, Santos TC, Nepomuceno JLV, Nogueira MARJ, Cavalheiro EA and Faber J (2022) Embodiment of a virtual prosthesis through training using an EMG-based human-machine interface: Case series Front. Hum. Neurosci. 16:870103. doi: 10.3389/fnhum.2022.870103

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    Rafael F. Carpi

    Editor na Jornalista Inclusivo e na PCD Dataverso. Formado em Comunicação Social (2006), foi repórter, assessor de imprensa, executivo de contas e fotógrafo. É consultor em inclusão, ativista dedicado aos direitos da pessoa com deficiência, e redator na equipe Dando Flor e na Pachamen Editoria.

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