“Hanseníase no Brasil é uma endemia oculta altíssima”, alerta especialista

busca ativa de casos de hanseniase no interior do pais
Campanha contra a Hanseníase no Brasil, um dos poucos países que ainda detecta a doença. (Imagem: Reprodução. Foto: Divulgação)

País só perde para a Índia em números absolutos, mas já é o primeiro em taxa de detecção da doença e concentra 93% dos casos das Américas

A hanseníase está na lista das doenças negligenciadas no Brasil, um dos poucos países que ainda registra casos da doença, com taxa de detecção que pode ser ainda maior, como aponta a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH). A organização realiza a campanha “Janeiro Roxo: Todos contra a hanseníase”, com ações pelo interior País desde 2015.

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    Boa leitura!

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    Cenário da hanseníase no Brasil

    No topo da lista dos poucos países que ainda registram a hanseníase, a taxa de detecção no Brasil alcançou 1,3 por 10 mil habitantes em 2019, antes da pandemia — houve acentuada queda de diagnósticos de novos casos desde 2020. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), acima de 4,0 o país entra na “situação hiperendêmica”. A taxa baixa de detecção é menos que 0,2 casos a cada 10 mil habitantes; a taxa média é de 0,2 a 0,9; e a alta de 1,0 a 1,9.

    Segundo o dermatologista e hansenólogo Claudio Guedes Salgado, presidente da SBH, o “Brasil vive um cenário que remete a um histórico de estigma e preconceitos institucional, profissional e da sociedade em geral contra as pessoas atingidas pela hanseníase e os familiares que convivem ou conviveram com a doença”.

    O especialista elenca ainda as seguintes falhas:

    • Falta de linhas de cuidado, fazendo com que as pessoas diagnosticadas não tenham acesso ao sistema de saúde;
    • Ausência de novas drogas para tratamento, o que a caracteriza como uma doença negligenciada;
    • Tentativa de diminuição do tempo de tratamento dos pacientes com os mesmos antibióticos usados há mais de 4 décadas, ignorando a capacidade bacteriana de se proteger para se manter viva;
    • Uso indiscriminado de drogas imunossupressoras para o tratamento de “reações” que nunca cessam;
    • O diagnóstico de outras doenças que podem, em algumas de suas fases, parecer com a hanseníase, dentre vários outros problemas.

    O Brasil tem estrutura e tecnologia para fabricação de novas drogas, mais eficazes e de custo acessível para tratamento da hanseníase. O tratamento no Brasil é feito pelo SUS com a PQT – Poliquimioterapia, um coquetel de antibióticos usados há 40 anos. Por isso, é preocupante o índice de falência de tratamento (quando paciente o conclui, mas ainda tem bacilos vivos) e recidiva (volta da doença).

    Número de casos da endemia oculta

    O Brasil, em média, registrava cerca de 30 mil novos casos por ano antes da pandemia, mas a SBH alerta que existem de três a cinco vezes mais casos sem diagnóstico e uma endemia oculta “altíssima” de hanseníase. Significa milhares de pessoas sem tratamento, sofrendo sequelas que surgem com o avanço da doença — e poderiam ser evitadas — e transmitindo o bacilo a pessoas saudáveis.

    Segundo a SBH, o país vem registrando um aumento do percentual de pessoas diagnosticadas com grau 2 de incapacidade física (que são sequelas incapacitantes) como consequência de diagnósticos tardios.

    “Além disso, temos muitos casos diagnosticados em crianças, o que indica uma alta circulação do bacilo nas comunidades”, alerta o especialista da SBH.

    Nos últimos anos, a SBH tem acompanhado aumento substancial de novos diagnósticos em localidades brasileiras com hansenólogos atuando e onde são feitas ações de capacitação de profissionais de saúde para o diagnóstico e tratamento da hanseníase, o que comprova o cenário de endemia oculta da doença. Foi o que ocorreu em Jardinópolis, interior paulista, que tem um dos maiores índices da doença no país, e em Ribeirão Preto, detentora do maior índice no Estado de São Paulo.

    Alerta a autoridades

    O Brasil é um dos poucos países que continuam diagnosticando a doença. Há anos, porém, a SBH vem alertando autoridades brasileiras e estrangeiras sobre o problema das localidades sem registro da doença, tanto no Brasil quanto em países em situação socioeconômica e condições sanitárias piores. 

    No artigo “Os números de casos de hanseníase são confiáveis?”, publicado na revista The Lancet, em fevereiro de 2018, os hansenologistas brasileiros já estavam alertando a OMS sobre o problema.

    “Em muitos países, a hanseníase foi oficialmente considerada eliminada, mesmo com o diagnóstico de mais de 200 mil casos novos por ano no mundo. Uma vez eliminada, serviços são extintos e a doença para de ser ensinada nas faculdades e universidades, resultando em um quadro grave de falta de conhecimento sobre ela no meio acadêmico, com consequente falta de diagnóstico nos serviços de atendimento à população mesmo de quadros clássicos”, analisa Claudio Salgado, doutor em Imunologia da Pele pela Universidade de Tóquio e professor titular da Universidade Federal do Pará.

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    Números da hanseníase no país

    O mais recente Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde mostra que de 2016 a 2020 foram diagnosticados 155.359 casos novos de hanseníase no país. O Mato Grosso foi o estado com a maior taxa de detecção: 71,44 casos novos por 100.000 habitantes. O Tocantins ficou em segundo lugar com 53,95 casos novos por 100.000 habitantes, sendo que a capital, Palmas, registrou taxa de 118,51 casos por 100.000 habitantes, a maior entre as capitais do país. De 2011 a 2020, o Brasil diagnosticou 19.963 casos novos de hanseníase com grau 2 de incapacidade física (sequelas incapacitantes).

    Hanseníase tem cura

    A doença tem cura, tem tratamento gratuito em todo o território nacional, não faltam medicamentos (são doados pela OMS ao país) e o diagnóstico é clínico, ou seja, a pessoa apresenta um conjunto de sinais e sintomas que podem ser identificados em consulta médica. Em tratamento, a pessoa que está doente já para de transmitir a hanseníase.

    Entre os sintomas da doença, a pessoa apresenta os nervos espessos devido agressão da Mycobacterium leprae, além de manchas irregulares avermelhadas ou esbranquiçadas pelo corpo. De acordo com a SBH, em algumas áreas da pele pode haver perda de pelos, diminuição e perda total de sensibilidade e ausência total ou parcial de suor, entre outros sinais.

    Segundo o alerta, o fato da doença ter sido “equivocadamente considerada controlada, os profissionais de saúde não são preparados nas universidades para diagnosticar a hanseníase”

    Por isso, é comum o paciente conviver muitos anos com o bacilo causador da doença e transmitindo a hanseníase a seus comunicantes – familiares, profissionais de saúde que prestaram atendimento desprotegidos, por exemplo, e pessoas que possam ter tido contato próximo e íntimo.

    Tais pacientes passam por inúmeros serviços de saúde e não raro recebem diagnóstico de doenças reumatológicas, por exemplo (por causa de dores nas articulações), trombose (por causa da dificuldade em caminhar), e até enfarto (pelas dores nos nervos dos braços), além de várias outras doenças.

    O número de crianças menores de 15 anos com hanseníase é preocupante — como a doença demora alguns anos para se manifestar, esses casos sinalizam que as crianças estão sendo contaminadas dentro de casa.

    A doença não pode ser erradicada — assim como a gripe, por exemplo –, mas pode ser controlada. Não há ainda uma vacina, mas hansenologistas brasileiros têm avançado em pesquisas e seus estudos vêm sendo divulgados frequentemente em publicações científicas brasileiras e estrangeiras.

    A estratégia de enfrentamento à hanseníase é a informação da população, a capacitação de profissionais de saúde e a ampliação dos diagnósticos para quebrar a cadeia de transmissão do bacilo.

    Rafael Ferraz (Editor)
    Rafael Ferraz (Editor)

    Comunicador Social desde 2006, jornalita pela Faculdade Prudente de Moraes (FPM). Trabalha com jornalismo digital acessível e consultoria em acessibilidade e inclusão. Foi repórter em rádio AM, jornais impresso, assessor de imprensa, executivo de contas e fotógrafo em navios de cruzeiro. É tetraplégico e ativista pelos direitos da pessoa com deficiência.

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