“Eu, Leo” leva história de autismo, surdez e pertencimento a Los Angeles

Menino de óculos amarelos e mulher sentados frente a frente em sala de aula, com as mãos erguidas durante uma interação.

#DescriçãoDaImagem: Fotografia em plano médio com foco no menino e na mulher. À esquerda, o menino de pele clara, cabelos escuros e óculos de armação amarela veste camiseta cinza clara. Ele aponta o dedo indicador direito para a mulher e segura um lápis com a mão esquerda. À direita, a mulher de cabelos longos e cacheados veste blusa listrada em preto e branco, possui tatuagens no braço esquerdo e também aponta o indicador direito para o menino. Sobre a carteira branca há um caderno aberto, um estojo azul estampado e uma borracha. Ao fundo, com desfoque (bokeh), veem-se outras crianças sentadas em ambiente escolar. (Foto: Divulgação “Eu, Leo”)

Curta brasileiro acompanha um menino que encontra na Libras novas possibilidades de comunicação; produção reúne protagonista autista e crianças surdas no elenco.

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Um menino autista de 11 anos que não utiliza a fala encontra, entre colegas com deficiência auditiva, novas possibilidades de se comunicar e participar da vida escolar. Essa é a história de “Eu, Leo”, curta-metragem brasileiro dirigido e escrito por Ricardo Cioni Garcia, que integra a 19ª edição do Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF), nos Estados Unidos.

A programação oficial do festival reservou uma sessão para o filme em 2 de novembro, no The Culver Theater, em Culver City. Segundo a assessoria da produção, a obra foi exibida nessa data e o diretor de fotografia Heitor Cavalheiro concorre ao prêmio de Melhor Fotografia em Curta-Metragem de Ficção. O anúncio dos vencedores está previsto para hoje, 5 de novembro , no encerramento do evento.


Com cerca de 20 minutos e diálogos em português e Língua Brasileira de Sinais (Libras), o curta tem Guilherme Faci no papel principal. A presença de uma criança autista e de crianças surdas no elenco, informada pela equipe, conecta a discussão proposta pelo roteiro à participação de pessoas com deficiência na realização audiovisual.

Uma escola, diferentes maneiras de se comunicar

Na ficção, Leo chega a uma escola frequentada majoritariamente por estudantes surdos. Nesse ambiente, a língua de sinais passa a fazer parte de suas relações e abre caminhos para que ele seja compreendido. O pertencimento se constrói na convivência com a turma e na possibilidade de participar das trocas cotidianas.

A premissa coloca em discussão as condições que um ambiente oferece para a comunicação. Ao acompanhar um personagem que não utiliza a fala, a história permite olhar para a escuta, para as relações entre colegas e para a disposição de reconhecer outras formas de expressão.

Parte dessa história foi filmada no Colégio Xingu, no ABC Paulista. Em relato publicado pela própria escola , a instituição conta que também participou da seleção de elenco e que Guilherme, seu aluno, foi escolhido como protagonista. O encontro entre a equipe e a comunidade escolar antecedeu as gravações.

Inclusão também na realização do filme

“Eu, Leo” nasceu do projeto Surdos Fazem Cinema , criado por Ricardo Cioni Garcia. A iniciativa oferece formação audiovisual gratuita a estudantes surdos e estimula a criação de suas próprias histórias.

O site do projeto reúne curtas produzidos pelos alunos em aula e apresenta como objetivo ampliar a participação da comunidade surda diante das câmeras e nas diferentes funções de uma produção.

Esse debate envolve acesso à formação, oportunidades profissionais e espaço para decidir como as histórias serão contadas. É uma discussão presente também na cobertura do Jornalista Inclusivo sobre cineastas com deficiência no Festival de Cinema de Gramado, publicada em agosto de 2026, com foco na autoria surda e neurodivergente.

Nos bastidores de “Eu, Leo”, a equipe relata ter organizado um ambiente silencioso e trabalhado com poucas repetições por cena. Heitor Cavalheiro afirma, em declaração enviada à imprensa, que trabalhar com as crianças exigiu atenção à relação entre as escolhas de imagem e a história contada.

“A fotografia tem que servir à história, e não o contrário”, diz o diretor de fotografia. Para ele, realizar o filme com crianças surdas e com uma criança autista faz parte do compromisso de inclusão da obra.

Como a fotografia acompanha a história de Leo

A direção de fotografia também usa a proporção da imagem para acompanhar a relação de Leo com os ambientes. Segundo Heitor Cavalheiro, em informações encaminhadas pela assessoria, o filme começa em 4:3, com um quadro mais próximo do quadrado, e a tela se alarga à medida que o personagem passa a ser compreendido e incluído. As mudanças foram planejadas antes das gravações, cena a cena.

Menino segura uma claquete diante de dois profissionais com fones de ouvido. Câmera e refletores ocupam a sala de aula.
#DescriçãoDaImagem: Fotografia de bastidores de gravação. Em primeiro plano, visto de costas, um menino de camiseta azul escura e blusa amarrada na cintura segura uma claquete voltada para a equipe. À direita, um operador de câmera com barba, camiseta preta e fones de ouvido manuseia uma câmera de cinema em um tripé. Ao centro, outro profissional de preto, com fones no pescoço, olha para o menino e sorri. À esquerda, um grande refletor em um tripé com abas pretas (flags) ilumina a cena. O cenário ao fundo inclui armários brancos com pilhas de cadernos, cadeiras azuis e desenhos infantis fixados na parede. (Foto: Divulgação Eu, Leo / BTS | Créditos: Heitor Cavalheiro)

O fotógrafo relata ainda o uso de uma lente macro, capaz de registrar pequenos detalhes, e de uma área de foco bastante restrita na cena de abertura. A câmera destaca partes de um brinquedo de massinha como recurso artístico para representar a atenção de Leo. Essa construção visual corresponde à perspectiva escolhida para o personagem.

A luz também acompanha a narrativa: conforme a explicação enviada, ela é mais acolhedora nos lugares em que Leo se sente seguro e mais dura e fria nos ambientes que lhe são hostis. Em outras passagens, a câmera permanece com o menino enquanto há agitação ao redor.

Circulação por festivais no Brasil e no Japão

Além da participação em Los Angeles, “Eu, Leo” aparece na seleção oficial do Kineko International Film Festival , em Tóquio. Com o título internacional “I, Leo”, integra o programa “Stories That Speak to the Heart”, que reúne cinco curtas sobre temas como identidade, crescimento e relações humanas.

No Brasil, a produção informa que o filme recebeu o prêmio de Melhor Filme na categoria Histórias Curtas do 23º Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI), pelo júri infantil. A conquista na categoria também foi noticiada pela Revista de Cinema em setembro de 2026 .

A produção é da Butikin Filmes, com Gleison Mota. A ficha técnica reúne ainda Renan Prado na montagem, Fátima Lima na direção de arte e Thiago Muller na trilha original. Francis Helena Cozta, Celina Vaz, Luciana Canton, Samuel Alves e Rayanne Andrade também integram o elenco.

Trailers e acesso do público

A divulgação disponibilizou duas opções para conhecer a proposta do curta:

Os links levam às prévias do filme. O material recebido não informa uma data de lançamento integral em plataforma aberta ao público nem detalha os recursos de acessibilidade de cada versão.

A presença de Libras na narrativa merece ser acompanhada de informações sobre o acesso às sessões e aos materiais de divulgação. O Jornalista Inclusivo abordou essa dimensão na cobertura de 2025 sobre o Cinema Acessível Kids, que anunciou sessões com Libras, audiodescrição e legendas descritivas. Para quem pretende assistir a “Eu, Leo”, a disponibilidade desses recursos ainda precisa ser informada pela produção e pelos responsáveis por cada exibição.