Surto de Síndrome de Guillain-Barré no Peru salta para 130 casos suspeitos

Síndrome de Guillain-Barré no Peru. OMS alerta e emite orientações aos Estados-Membros. Foto de pessoa sentada no sofá segurando o punho direito, um dos sinais da síndrome rara
Presidência declara estado de emergência após aumento incomum de casos suspeitos de Síndrome de Guillain-Barré no Peru. Segundo a OMS, situação requer cooperação internacional. (Imagem: Gerada por IA/Bing Creator)

Peru investiga causa para o surto não se espalhar pelo país: o que se sabe até o momento, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 26 de junho de 2023, um alerta epidemiológico foi emitido pelo Centro Nacional de Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (CDC) do Peru devido a um aumento incomum nos casos da Síndrome de Guillain-Barré (SGB) em diferentes regiões do país. Entre 10 de junho e 15 de julho de 2023, nada menos que 130 casos suspeitos de SGB foram relatados, dos quais 44 foram confirmados. Esses números alarmantes contrastam com o histórico, onde o país costumava registrar menos de 20 casos suspeitos por mês, em média, excluindo o surto de 2019. O aumento das ocorrências é maior do que o esperado, tornando a situação motivo de grande preocupação.

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Boa leitura!

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Surto de Síndrome de Guillain-Barré no Peru

No início de julho de 2023, a Presidência da República do Peru decretou estado de emergência de saúde nacional devido ao aumento incomum de casos e intensificou a implementação de respostas de saúde pública. Até o momento, a causa potencial do aumento inesperado de casos de Síndrome de Guillain-Barré (SGB) está sob investigação.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselha os Estados-Membros a manterem o monitoramento contínuo da incidência e das tendências de distúrbios neurológicos, especialmente a SGB, para identificar variações em relação aos valores basais esperados e implementar protocolos para aprimorar o tratamento dos pacientes. Ao observar de perto e rastrear essas condições, os países podem responder efetivamente a quaisquer mudanças e garantir que medidas apropriadas estejam em vigor para lidar com possíveis preocupações de saúde pública.

Descrição da situação e relatos

Entre as semanas epidemiológicas 1 e 28 (até 15 de julho de 2023), foi relatado um total de 231 casos suspeitos de Síndrome de Guillain-Barré (SGB) no Peru, conforme definido pelo Padrão Técnico de Saúde do Centro Nacional de Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (CDC) para Vigilância Epidemiológica e Diagnóstico Laboratorial para SGB , abrangendo 20 dos 24 departamentos do país. Dessas ocorrências, 56% dos casos (130 casos) foram notificados entre as semanas epidemiológicas 23 (10 de junho de 2023) e 28 (15 de julho de 2023). 

Desde o início do ano, o maior número de casos de SGB foi registrado em sete dos 24 departamentos do país: Lima e Callao (75 casos), La Libertad (39), Piura (21), Lambayeque (20), Cajamarca (17), Junín (12) e Cusco (10). Até 15 de julho de 2023, foram confirmados 100 casos compatíveis com SGB, incluindo quatro óbitos (Taxa de Letalidade 1,7%).

O grupo etário mais afetado foi o de adultos com idade maior ou igual a 30 anos (158 casos), enquanto crianças com menos de 17 anos representaram 19% dos casos (44 casos). Mais da metade dos casos relatados (133; 57,6%) pertencia ao sexo masculino.

Manifestações e coletas de amostras

As manifestações clínicas preliminares dos 130 casos relatados entre as semanas epidemiológicas 23 (10 de julho de 2023) e 28 (15 de julho de 2023) incluíram infecção gastrointestinal, infecção respiratória e febre. Além disso, 72,3% desses casos (94 casos) apresentaram progressão ascendente de paralisia como manifestação neurológica, com outros casos apresentando algum tipo de sequela.

Foram coletadas amostras dos casos de acordo com o padrão técnico de saúde para vigilância epidemiológica e diagnóstico laboratorial de SGB no Peru. Entre as semanas epidemiológicas 23 e 28, foram coletadas 22 amostras, das quais 14 (63%) foram positivas para Campylobacter jejuni (um dos fatores de risco mais comuns para SGB) em amostras dos departamentos de La Libertad (5 casos), Lima (4), Piura (3), Cusco (1) e Lambayeque (1), sendo que a amostra de Lambayeque foi caracterizada como genótipo Campylobacter jejuni do tipo sequência (ST) 2993.

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Epidemiologia da doença

A Síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma doença neurológica rara, mas de gravidade clínica variável, podendo levar a desfechos fatais. É a forma mais comum de paralisia flácida aguda em todo o mundo e se caracteriza por fraqueza muscular, ausência de reflexos musculares (areflexia), alterações sensoriais e aumento dos níveis de proteínas no líquido cefalorraquidiano (dissociação citoalbuminológica). Na maioria dos casos, a SGB é precedida por uma infecção respiratória superior ou gastrointestinal.

Atualmente, não há cura conhecida para a SGB, mas existem tratamentos de suporte disponíveis. Em alguns casos, os pacientes podem necessitar de cuidados intensivos e acompanhamento médico. A maioria dos tratamentos visa controlar os sintomas, apoiar a recuperação e, potencialmente, encurtar a duração da doença. Embora a recuperação completa seja comum na maioria dos casos, inclusive os mais graves, a SGB pode causar paralisia quase total. A infecção por Campylobacter jejuni é o fator desencadeante mais frequente e geralmente está associada à forma aguda de neuropatia motora axonal da SGB. Embora a síndrome seja mais comum em adultos e homens, pessoas de todas as idades podem ser afetadas.

Em 2019, o Peru enfrentou um surto sem precedentes de SGB que afetou várias regiões do país, com quase 700 casos relatados (incidência: 1,2/100.000 habitantes). Com base nas características clínico-epidemiológicas e no estudo dos agentes identificados, foi concluído que o surto estava associado à presença do genótipo Campylobacter jejuni ST2993. Além disso, durante o ano de 2020, foram relatados um total de 448 casos em todo o país, com uma média semanal de 11 casos. Já em 2021, foram relatados 210 casos, com uma média semanal de quatro casos. De forma similar, em 2022, foram notificados 225 casos, com uma média semanal consistente de quatro casos.

Figura 1. Tendências de casos da Síndrome de Guillain-Barré no Peru em 2021, 2022 e 2023 (Semana epidemiológica 28)

Gráfico mostra o surto de Síndrome de Guillain-Barré no Peru, saltando de 20 para 130 casos suspeitos.
Descrição alternativa #PraGeralVer: Gráfico de tendências de casos da Síndrome de Guillain-Barré no Peru nos anos 2021, 2022 e 2023, mostrando o pico de casos em julho de 2023. Fonte: Centro Nacional de Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (CDC) Peru-Peru. A situação da Síndrome de Guillain-Barré - Peru, 2023 (Semana Epidemiológica 28).

Resposta de saúde pública

O Centro Nacional de Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (CDC) do Peru, vinculado ao Ministério da Saúde, emitiu um alerta epidemiológico em 26 de junho de 2023 e tem mantido a monitorização da situação através de uma Sala de Situação de SGB.

Em 8 de julho de 2023, a Presidência da República do Peru declarou estado de emergência de saúde nacional devido ao aumento incomum de casos de Síndrome de Guillain-Barré (SGB). O decreto prevê:

  • A implementação de um plano de ação que inclui o financiamento para fornecimento de recursos estratégicos em saúde, como a aquisição de 7000 imunoglobulinas humanas para o tratamento de pacientes com SGB, visando promover a recuperação e prevenir complicações associadas ao distúrbio.
  • Intensificação das ações de vigilância, prevenção e resposta a possíveis casos.
  • Comunicação de risco aos profissionais de saúde e emissão de mensagens-chave à população para adoção de medidas preventivas.
  • Orientação sobre a Síndrome de Guillain-Barré para profissionais de saúde e a população em geral.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está apoiando as autoridades de saúde do Peru na gestão desse evento.

Avaliação de risco da OMS

A Síndrome de Guillain-Barré é uma condição rara e, embora seja mais comum em adultos e homens, pessoas de todas as idades podem ser afetadas. A causa não é totalmente compreendida, mas na maioria dos casos, ela se desenvolve após uma infecção viral ou bacteriana, levando o sistema imunológico a atacar o próprio corpo. A infecção pela bactéria Campylobacter jejuni, que causa gastroenterite, é um dos fatores de risco mais comuns para a SGB. 

Entretanto, as pessoas também podem desenvolver SGB após terem gripe ou outras infecções virais, incluindo citomegalovírus, vírus Epstein-Barr e vírus Zika. Em casos raros, as vacinações podem aumentar o risco de SGB nas pessoas, mas a probabilidade disso ocorrer é extremamente baixa. Estudos mostram que as pessoas têm muito mais probabilidade de desenvolver SGB de infecções, como a gripe, do que da vacinação contra a gripe. Ocasionalmente, a cirurgia pode desencadear a SGB.

Até o momento, a causa do aumento relatado da incidência de SGB no Peru está sob investigação, e a infecção por Campylobacter jejuni foi confirmada pelo laboratório em 63% dos casos de SGB de 22 amostras testadas desde a semana epidemiológica 23. Em 2019, o Peru relatou um surto sem precedentes de Síndrome de Guillain-Barré, que afetou várias regiões do país, e foi concluído que o surto estava associado à presença do genótipo Campylobacter jejuni ST2993.

Mais investigações são necessárias para identificar as possíveis causas associadas ao aumento. Até o momento, não foi encontrada associação com o atual surto de dengue, e a transmissão do vírus Zika está atualmente baixa no país. Além disso, não houve relatos de aumento semelhante de casos em outros países das Américas.

Orientações da OMS

As orientações da OMS para os Estados-Membros são para continuar monitorando a incidência e as tendências de distúrbios neurológicos, especialmente a SGB, para identificar variações em relação aos valores basais esperados, desenvolver e implementar protocolos adequados para o tratamento dos pacientes para lidar com a carga adicional nos serviços de saúde gerada por um aumento repentino de pacientes com SGB, conscientizar os profissionais de saúde e estabelecer ou fortalecer as ligações entre os serviços de saúde pública e os clínicos nos setores público e privado.

A OMS não emitiu recomendações que imponham restrições de viagem e/ou comércio especificamente para o Peru em resposta a esse evento.

Jornalista Inclusivo
Jornalista Inclusivo

Da Equipe de Redação

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