Geração Invisível: Como 300 mil idosos autistas correm risco de serem tratados como pacientes com demência

Idoso pensativo olha pela janela. Gráfico sobrepõe estimativa da geração invisível no Brasil: Autismo (300 mil) vs Demência (2,5 milhões).
#DescriçãoDaImagem: A imagem mostra um homem idoso de pele clara e cabelos grisalhos, vestindo um suéter bege. Ele está apoiado no parapeito de uma janela, olhando para fora. Ao fundo, estantes de livros estão desfocadas. Sobreposta à direita, uma caixa gráfica traz o título “PREVALÊNCIA NO BRASIL (ESTIMATIVA)” e compara duas barras: uma amarela menor para “AUTISMO: 300 MIL” e uma azul bem maior para “DEMÊNCIA: 2,5 MILHÕES”. (Foto: Gerada por IA)

Entenda o risco de confundir as condições e saiba como diferenciar a trajetória de vida do declínio cognitivo.

Relatório do Ministério da Saúde aponta 2,46 milhões de brasileiros com demência, número que deve dobrar até 2039. Nesse cenário, distinguir o autismo na “geração invisível” do declínio cognitivo torna-se o maior desafio da geriatria moderna.

Por Redação Jornalista Inclusivo

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Durante décadas, a medicina operou sob um dogma silencioso: o autismo era uma condição infantil que, magicamente, parecia desaparecer na vida adulta. Essa invisibilidade estatística foi quebrada em maio de 2025, quando o IBGE divulgou os recortes de idade do Censo 2022. A análise, refinada pela PUCPR, trouxe à luz um número que o sistema de saúde não estava preparado para ler: existem mais de 300 mil pessoas idosas (60+) autodeclaradas autistas no Brasil.


Este contingente, que representa 0,86% da população idosa, emerge em um cenário de saúde pública já saturado por outra crise monumental. Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, divulgado em setembro de 2024 pelo Ministério da Saúde em parceria com a Unifesp, estima-se que 2,46 milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivam com alguma forma de demência no país. E o cenário é de expansão acelerada: a projeção oficial indica que esse número deve duplicar, ultrapassando 5 milhões de casos até 2039.

É no choque entre essas duas realidades — 300 mil autistas versus uma maré crescente de 2,46 milhões de casos de demência — que reside o maior perigo para a “Geração Grisalha” do espectro. Pela lógica estatística, um médico geriatra tende a interpretar qualquer rigidez cognitiva ou isolamento social como início de Alzheimer. Mas, para centenas de milhares de brasileiros, esse diagnóstico pode ser um erro trágico.

O risco da confusão diagnóstica entre pacientes com demência e idosos autistas

A confusão diagnóstica não é apenas semântica; ela tem consequências químicas e sociais. Um idoso autista em uma Instituição de Longa Permanência (ILPI) que entra em crise sensorial devido ao barulho do refeitório pode ser interpretado como alguém em surto psicótico ou agitação demencial.


A resposta padrão do sistema para a demência é, muitas vezes, a sedação ou a contenção farmacológica. Para o autista, a solução seria a regulação sensorial (fones de ouvido, ambiente calmo). Tratar um cérebro neurodivergente com protocolos para cérebros em degeneração é uma forma de violência médica que os novos dados do Ministério da Saúde e do Censo nos obrigam a enfrentar.

Arqueologia Biográfica vs. Terremoto Cognitivo

Em uma sala com instrumentos, um idoso e uma terapeuta tocam sinos coloridos de mão alinhados sobre uma mesa branca.
#DescriçãoDaImagem: Em uma sala de atividades musicais, um homem idoso de óculos e camiseta cinza está sentado à mesa ao lado de uma mulher mais jovem com cabelos longos. Sobre a mesa branca, há uma fileira de oito sinos de mão coloridos e alguns lápis de cor. A mulher segura um sino vermelho e parece interagir com o idoso, que se concentra nos instrumentos. Ao fundo, veem-se tambores e um calendário na parede, em ambiente de terapia ocupacional. (Créditos: Instituto Jô Clemente)

Para entender a diferença crucial entre um idoso autista e um idoso com demência, é preciso abandonar a fotografia do momento e olhar para o filme da vida.

Em entrevista exclusiva ao Jornalista Inclusivo, Ricardo Valverde, supervisor do Serviço de Longevidade do Instituto Jô Clemente (IJC), oferece a chave técnica para esse dilema. Segundo o especialista, o diagnóstico de autismo na terceira idade é um exercício de arqueologia biográfica, enquanto o diagnóstico de demência trata de uma ruptura, um “terremoto” recente.

“A depressão e as demências podem ser confundidas com o TEA porque compartilham sintomas de isolamento. Porém, no autismo, comportamentos como dificuldades de comunicação e interação social fazem parte da trajetória de vida da pessoa. Eles costumam estar presentes desde a infância, ainda que camuflados”, explica Valverde.

A distinção técnica é clara:

  • No Autismo (A Constante): O idoso sempre teve rituais rígidos, sempre evitou contato visual excessivo e sempre teve interesses restritos. A “rabugice” não é nova; é uma característica neurodivergente que apenas se acentuou com a perda das amarras sociais do trabalho.
  • Na Demência (A Ruptura): Ocorre uma mudança abrupta. O idoso que era sociável torna-se retraído; quem era flexível torna-se rígido. “Quando há uma mudança abrupta de comportamento e um isolamento repentino, é pouco provável que essas manifestações estejam relacionadas ao TEA”, alerta Valverde.


Gerontologia Neurodivergente: O Vazio Terapêutico

Se o diagnóstico tardio traz o alívio de “finalmente saber quem sou”, ele também inaugura uma nova angústia: a falta de suporte. A ciência da reabilitação focou, nos últimos 40 anos, na neuroplasticidade infantil. As terapias comportamentais (como ABA ou Denver) são desenhadas para ensinar crianças a falar, brincar e ir à escola.

Mas o que a medicina oferece ao autista de 75 anos?

Ricardo Valverde admite que esta é uma preocupação atual do setor. “O diagnóstico tardio oferece um nome e um porquê, mas precisamos de um plano terapêutico alinhado à realidade do envelhecimento”, diz. No IJC, a abordagem adotada é biopsicossocial. Diferente da intervenção infantil, o foco no idoso não é “moldar comportamento”, mas garantir autonomia funcional e preservação cognitiva.

Isso inaugura o que podemos chamar de “Gerontologia Neurodivergente”: uma nova especialidade que precisa entender como o autismo interage com a menopausa, com a aposentadoria, com a viuvez e com as limitações físicas naturais da idade.


Entre a Culpa e a Ressignificação

Para as famílias, a revelação de que o avô ou a mãe são autistas provoca um misto de sentimentos complexos. Há o luto pela “normalidade” que nunca existiu e a culpa pelas cobranças do passado.

“Muitas pessoas atravessaram décadas sem o suporte adequado, sendo rotuladas. Reconhecer o TEA na velhice é um ato de dignidade”, afirma Danielle Christofolli, gerente do Centro de Neurodesenvolvimento do IJC.

Ao final, o diagnóstico não muda quem o idoso é, mas muda radicalmente como ele é lido pelo mundo. Deixa de ser o “velho difícil” para ser o sobrevivente de um mundo que não foi desenhado para ele.


🔍 Serviço: Geração Invisível

SINALAUTISMO (Trajetória)DEMÊNCIA (Ruptura)
MemóriaPreservada (muitas vezes excepcional para interesses específicos).Falhas recentes e progressivas. Perda de fatos importantes.
SocializaçãoDificuldade histórica. Sempre preferiu ficar só ou teve pouco traquejo social.Era sociável e “esqueceu” como interagir ou se isolou de repente.
RotinaNecessidade de rituais para se sentir seguro. Pânico se a rotina muda.Confusão com a rotina. Perde-se no tempo e espaço.
LinguagemPode ser formal, pedante ou muito direta (sincericídio).Empobrecimento do vocabulário. Dificuldade de encontrar palavras.


Onde buscar apoio:
O Instituto Jô Clemente (IJC) é referência em Longevidade para pessoas com Deficiência Intelectual e TEA.
Contato: (11) 5080-7000 | ijc.org.br