#Audiodescrição: A imagem é uma composição em tela dividida que contrasta dois cenários. O lado esquerdo, iluminado por uma luz quente, mostra três pessoas meditando em posição de lótus, próximas a uma cesta de frutas e plantas. O lado direito, com uma luz azul fria, retrata um escritório à noite com um relógio marcando “10:45 PM”. Um homem de terno, com expressão séria e braços cruzados, está de pé atrás de dois funcionários que dormem debruçados sobre suas mesas, cercados por pilhas de papel. Na tela do computador, um gráfico vermelho aponta para baixo, e notas adesivas na mesa trazem os alertas “URGENT GOALS” e “DEADLINE NOW”. (Imagem: Gerada por IA)
Dados do INSS e da OMS confirmam explosão de afastamentos, mas corporações insistem em transferir a responsabilidade do adoecimento para a “falta de constância” individual, ignorando barreiras na neurodivergência e a toxicidade estrutural.
Enquanto relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde apontam um crescimento contínuo de licenças por transtornos mentais no Brasil, o ambiente corporativo parece preso em um ciclo de ineficácia. A resposta padrão das empresas – palestras motivacionais esporádicas ou aplicativos de meditação – tem se mostrado insuficiente para conter a sangria de talentos e saúde. O fenômeno, muitas vezes classificado por críticos como wellness washing (ou “lavagem de bem-estar”), mascara um problema estrutural: a tentativa de tratar sintomas coletivos com soluções individuais.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimam perdas bilionárias causadas pelo estresse ocupacional. No entanto, a narrativa predominante ainda foca na “resiliência” do trabalhador. Uma análise trazida por Claudia Faria, especialista em regulação emocional e criadora do método Yoga Adventure, expõe involuntariamente a ferida do sistema: o excesso de “soluções pontuais” que não se sustentam no médio prazo.
A Armadilha da “Constância” e a Neurodivergência
A análise aponta que a “falta de constância” é o principal entrave para a gestão do estresse. Faria argumenta que, sem treino contínuo, o autocuidado falha. “Em contextos extremos, não existe prática ocasional. Ou a resposta é treinada, ou o risco aumenta”, afirma a especialista, traçando um paralelo entre o escritório e ambientes de risco físico, como escaladas.
Porém, sob a ótica da Diversidade e Inclusão, essa exigência de “constância férrea” pode se tornar uma barreira excludente. Para profissionais neurodivergentes (como pessoas com TDAH ou Autismo) ou aqueles que lidam com a fadiga crônica de deficiências invisíveis, a inconsistência não é falta de vontade, mas uma característica neurobiológica ou resposta à exaustão.
Ao cobrar que o funcionário mantenha uma rotina rígida de “treino emocional” para suportar a pressão, as empresas podem estar criando mais uma camada de culpa sobre quem já está vulnerável, em vez de questionar por que o ambiente de trabalho se assemelha a um “contexto extremo” de sobrevivência.
Do “Evento Pontual” à Cultura Tóxica
A própria especialista admite que a fragmentação das rotinas e a cultura de urgência permanente sabotam o bem-estar. “Iniciativas adotadas apenas em momentos de crise tendem a gerar alívio momentâneo, mas pouco impacto no médio prazo”, destaca Faria.
Aqui reside o ponto cego do wellness washing: empresas investem em semanas de saúde mental (o “evento pontual” criticado), mas mantêm metas inalcançáveis e lideranças abusivas no restante do ano. O resultado, segundo levantamentos da Gallup citados no material, é a queda vertiginosa de engajamento.
Estratégias de Sobrevivência vs. Mudança Real
Embora a mudança estrutural dependa das corporações, as ferramentas sugeridas pela especialista podem servir como redução de danos para o trabalhador, desde que não sejam encaradas como a cura para um ambiente doente. As orientações incluem:
- Micro-pausas: Priorizar práticas curtas que caibam na rotina, em vez de grandes rituais.
- Gatilhos de Rotina: Associar a respiração ou movimento a momentos chave (início/fim do expediente) para criar hábito.
- Fugir do Genérico: Evitar soluções de prateleira sem acompanhamento.
Contudo, o alerta permanece: se o “autocuidado” é vendido como um treino para aguentar mais pressão, ele deixa de ser saúde e vira ferramenta de produtividade. A verdadeira inclusão exige que o ambiente se adapte às pessoas, e não que as pessoas precisem se “blindar” para sobreviver ao ambiente.
Enquanto as empresas não assumirem sua parcela de responsabilidade na equação da saúde mental, continuaremos enxugando gelo com toalhas de yoga, ignorando que a verdadeira sustentabilidade corporativa depende, antes de tudo, da dignidade humana preservada.
Box: Entendendo o Wellness Washing
O que é:
Derivado do termo greenwashing (falsa sustentabilidade), o wellness washing (“lavagem de bem-estar”) ocorre quando uma organização promove uma imagem externa de cuidado com a saúde mental, mas mantém internamente práticas de gestão tóxicas, abusivas ou excludentes.
A Discrepância:
É o abismo entre o “pacote de benefícios” (apps de meditação, salas de jogos, frutas no escritório) e a realidade estrutural (metas inatingíveis, assédio moral, jornadas exaustivas e falta de segurança psicológica).
Sinais de Alerta:
- Culpa Individual: A empresa oferece cursos de resiliência, mas não revisa a sobrecarga de tarefas, sugerindo que o estresse é falha do funcionário em “se gerenciar”.
- Incoerência: Gestores incentivam o descanso no discurso, mas enviam mensagens fora do horário de expediente ou durante as férias.
- Acessibilidade de Fachada: Há programas de saúde mental, mas eles não contemplam adaptações para pessoas neurodivergentes ou com deficiência.
Por que é perigoso:
Ao mascarar problemas estruturais com soluções cosméticas, a empresa retarda diagnósticos sérios de burnout e cria um ambiente de gaslighting corporativo, onde o trabalhador adoece achando que o problema é sua falta de “gratidão” pelos benefícios oferecidos.
