Exposição de Nise da Silveira em Fortaleza foca em audiodescrição imersiva

Fotografia da Exposição de Nise com seu retrato, quadros com gravuras e texto em destaque 'Arte Cura'.

#Audiodescrição: Fotografia colorida de um dos ambientes da exposição de Nise da Silveira. Sobre uma parede bege, há uma composição de quadros com desenhos coloridos e abstratos, organizados de forma assimétrica. À esquerda, uma grande fotografia em preto e branco de Nise sorrindo. No centro, em letras douradas volumétricas apoiadas sobre uma mesa de vidro, lê-se a frase “ARTE CURA”. O chão é revestido com grama sintética verde, e à direita, há uma escultura de cabeça branca sobre blocos de concreto e uma planta Espada-de-São-Jorge em um vaso. (Créditos: Allan Diniz)


Para ver Nise, é preciso ouvir o afeto: audiodescrição imersiva transforma exposição em “cinema para os ouvidos”

Em Fortaleza, projeto da Inclusive Acessibilidade rompe com a narração técnica tradicional e usa dubladores, paisagem sonora e dramaturgia para traduzir o inconsciente de Nise da Silveira – últimos dias.

Esqueça a voz robótica ou a descrição técnica fria que diz apenas “quadro retangular com moldura de madeira”. Na Caixa Cultural Fortaleza , a exposição de “Nise – A Revolução pelo Afeto” propõe uma revolução dentro da revolução: uma “Experiência Sonora Descritiva”.


Em cartaz até 1º de março de 2026, a mostra celebra os 120 anos da psiquiatra que mudou a história da saúde mental no Brasil. Mas, para os visitantes com deficiência visual (e para os videntes que se permitirem fechar os olhos), a experiência vai muito além da visão. Sob a batuta de Georgea Rodrigues, diretora da Inclusive Acessibilidade, o recurso de acessibilidade deixou de ser um “crachá de serviço” para se tornar uma obra de arte autônoma, utilizando a técnica de Sound Painting (pintura sonora).

Acessibilidade Estética: A Transgressão Necessária

Ao receber o desafio de traduzir o universo de Nise da Silveira — uma mulher que quebrou os muros dos manicômios com pincéis e afeto —, Georgea percebeu que a audiodescrição convencional não daria conta do recado.

“Compreendemos que uma obra como a de Nise, uma revolucionária, nos solicitava uma forma também um tanto ‘transgressora’ de produzir a audiodescrição”, explica Georgea em entrevista exclusiva ao Jornalista Inclusivo.

O resultado é um roteiro que funciona como um filme sem imagem. Personagens históricos, como Carl Jung e a própria Nise, são interpretados por dubladores profissionais. O som da água, o eco do poço e a respiração dos narradores compõem uma atmosfera que a produtora chama de “Acessibilidade Estética”.

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“Acredito muito na acessibilidade cultural que vai além da descrição de imagens. O que o roteirista audiodescritor precisa fazer é abrir sua percepção para enxergar a obra e traduzi-la. Se não, não há vínculo; e sem vínculo, ao meu ver, não há possibilidade de afeto”, pontua a diretora.

Bastidores: Da Dublagem à Consultoria Especializada

Georgea Rodrigues numa audiodescrição simultânea durante evento cultural
#Audiodescrição: Fotografia em plano médio com iluminação dramática, em tons de azul escuro e laranja. Georgea Rodrigues, uma mulher de pele parda, cabelos cacheados castanhos e óculos de grau, está em uma cabine de som. Ela segura uma folha de papel iluminada por uma pequena luminária de leitura, com expressão concentrada, lendo o roteiro. Ao fundo, equipamentos de áudio transmitem a atmosfera de bastidores de uma narração ao vivo. (Foto: Divulgação)

A qualidade cinematográfica do áudio não é acidente. Georgea traz para o projeto sua bagagem de 30 anos como dubladora e diretora de voz. O projeto contou com a supervisão internacional da Prof. Dra. Josélia Neves (que liderou a acessibilidade na Copa do Mundo do Catar) e o desenho de som de Maria Muricy, profissional consagrada do cinema.

Mas a validação final veio de quem vive a experiência: os consultores com deficiência visual Cida Leite e Raphael Braz. “Tivemos momentos de angústia, natural em todo processo de criação. Em alguns núcleos, conseguíamos traduzir o que estávamos enxergando, mas não conseguíamos transpor para uma narrativa dramatúrgica. Reescrevemos inúmeras vezes”, revela Georgea.

Luta Antimanicomial e Anticapacitista: O Mesmo Fundamento

A exposição, que já recebeu cerca de 7 mil visitantes, exibe 157 obras de artistas do Museu de Imagens do Inconsciente. Para a equipe da Inclusive, trabalhar com o legado de Nise revelou um paralelo poderoso entre a luta da psiquiatra e a luta das pessoas com deficiência.

“A exposição é a ‘Revolução pelo Afeto’, que nada mais é do que a quebra de barreiras atitudinais. A luta antimanicomial e a luta anticapacitista têm o mesmo fundamento: como enxergamos o outro que vivencia o mundo de forma diferente”, conclui Georgea.

Ouça um trecho da audiodescrição da mostra

Inclusive Acessibilidade: Audiodescrição – Nise da Silveira, Sala 03

📍 Serviço: Exposição de “Nise – A Revolução pelo Afeto”

  • Onde: Caixa Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287 – Praia de Iracema)
  • Quando: Até 1º de março de 2026
  • Horários: Terça a sábado (10h às 20h); domingos e feriados (10h às 19h)
  • Entrada: Gratuita
  • Acessibilidade: Audiodescrição imersiva (Sound Painting), acesso físico e classificação livre.
  • Mais informações: @inclusive_acessibilidade | @caixaculturalfortaleza