Estética do acesso: Luiza Sigulem ocupa espaço inacessível em SP para tensionar a arquitetura hostil

Luiza Sigulem, em cadeira de rodas, usa um rolo de cabo longo para pintar uma demarcação amarela na guia de uma calçada.
Descrição da imagem: A artista Luiza Sigulem, vestida de preto, está sentada em sua cadeira de rodas sobre a calçada em uma esquina urbana. Ela segura um rolo de pintura acoplado a um longo cabo extensor azul. Com o rolo, ela pinta um quadrado amarelo no meio-fio e no asfalto, demarcando visualmente onde deveria existir uma rampa de acesso. Ao fundo, carros passam na rua e há prédios comerciais. (Foto: Divulgação)

Inspirada na Teoria Crip, artista cadeirante transforma as barreiras do Ateliê397 em denúncia poética e propõe uma nova temporalidade para corpos que a cidade insiste em ignorar.

SÃO PAULO, 13 de janeiro de 2026 – Em uma cidade onde o ritmo é ditado pela eficiência e pela pressa, o corpo que não se adequa ao padrão é frequentemente visto como um erro, um atraso. Contrariando essa lógica excludente, a artista visual Luiza Sigulem inaugura, no próximo dia 24 de janeiro, a exposição “Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro”. A mostra, sediada no Ateliê397, não busca esconder as falhas de acessibilidade do espaço cultural; pelo contrário, ela as ilumina, transformando a barreira arquitetônica em matéria-prima estética e política.

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Com curadoria de Juliana Caffé, a exposição chega em um momento crucial para o debate sobre o direito à cidade. Segundo dados da PNAD Contínua 2022 (IBGE), o Brasil possui cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência. Deste contingente, aproximadamente 3,4 milhões possuem deficiência física nos membros inferiores, enfrentando diariamente uma malha urbana hostil que transforma trajetos simples em odisseias de negociação e risco.

A Teoria Crip e o “Tempo do Corpo”

O trabalho de Sigulem é profundamente alicerçado na Teoria Crip (do inglês cripple, termo reapropriado politicamente pelos movimentos de pessoas com deficiência). A teoria desafia a obrigatoriedade da “cura” ou da “correção” do corpo para se adequar ao mundo. Em vez disso, propõe que o mundo é que deve ser flexível o suficiente para abrigar a diversidade humana.


Na mostra, a artista explora o conceito de “crip time” (tempo crip) — uma temporalidade que rejeita a lógica produtivista do capitalismo. É o tempo da pausa, do ajuste, da rota alternativa necessária quando a rampa não existe ou o elevador está quebrado.

“Ao longo do meu processo, a falta de acessibilidade se manifestou no tempo necessário para lidar com pequenos e grandes obstáculos… Essa experiência deslocou a ideia de eficiência e aproximou minha produção de uma noção de tempo expandido, no qual o ritmo do corpo não coincide com a expectativa normativa.”

Luiza Sigulem, artista visual

O Espaço como Antagonista e Matéria-Prima

A escolha do Ateliê397 , localizado em Higienópolis, não foi acidental. O espaço, como muitos equipamentos culturais independentes de São Paulo, possui limitações estruturais de acesso. Em vez de maquiar essa realidade, a curadoria optou por uma intervenção radical: o segundo andar da galeria, inacessível para cadeirantes, foi interditado para todos.


A escada que levaria ao piso superior foi convertida em uma biblioteca de teoria Crip, bloqueando a passagem. Essa inversão expográfica força o público sem deficiência a experimentar, ainda que simbolicamente, a restrição de acesso que é rotina para pessoas com deficiência. A expografia, desenvolvida em colaboração com os arquitetos Francisco Rivas e Rodrigo Messina, reorganiza o espaço térreo com bancos e almofadas, validando o repouso como parte da experiência artística.

Rampas Onde Elas Deveriam Existir

Entre as obras inéditas, destaca-se a série Rampas (2025). Em uma releitura de performances históricas (dialogando com Francis Alÿs), Sigulem percorre as ruas de São Paulo e utiliza tinta amarela para pintar quadrados no meio-fio, exatamente nos pontos onde a acessibilidade é inexistente. As fotografias resultantes não são apenas registros de uma performance, mas denúncias cartográficas de uma cidade que falha com seus cidadãos.


A exposição também apresenta vídeo-performances onde a artista coloca o próprio corpo em negociação com o espaço, testando limites de equilíbrio e força, sugerindo que “a menor distância entre dois pontos raramente é uma linha reta” para quem tem um corpo dissidente.

Vídeo da artista Luiza Sigulem

Legado Concreto: Acessibilidade para Além da Galeria

A mostra “Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro” ultrapassa a barreira da representação simbólica. Como parte do projeto, rampas móveis sob medida estão sendo produzidas e serão doadas para espaços culturais vizinhos na Vila onde o ateliê se encontra.

Além disso, a exposição conta com recursos de tecnologia assistiva, como textos em Braille, audiodescrição e fototátil, e a equipe de mediação inclui pessoas com deficiência, garantindo representatividade em todas as pontas do processo.

Serviço

Exposição: “Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro”
Artista: Luiza Sigulem | Curadoria: Juliana Caffé
Abertura: 24 de janeiro de 2026, das 14h às 19h
Visitação: Até 28 de fevereiro de 2026 (Quarta a sábado, das 14h às 18h)
Local: Ateliê397 (Travessa Dona Paula, 119A – Higienópolis, São Paulo)
Entrada: Gratuita


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