#Audiodescrição: A imagem mostra, de costas, uma pessoa de pele negra com cabelos crespos presos em um coque alto. Ela veste a camisa amarela da seleção brasileira com o número 10 e a palavra “BRASIL” em verde nas costas. A pessoa usa grandes abafadores de ruído azuis sobre as orelhas. Ela está sentada em uma sala de estar, de frente para uma grande televisão que transmite uma partida de futebol em um estádio lotado. O ambiente está decorado com uma bandeira do Brasil pendurada na parede à direita e um copo temático da seleção sobre o rack da TV à esquerda. (Imagem: Gerada por IA)
Data criada pelo próprio movimento autista celebra a pluralidade neurológica. Em época de jogos, o desafio da sociedade é garantir que a festa não seja um gatilho de exclusão.
São Paulo-SP, 18 de junho de 2026 – Celebrado mundialmente em 18 de junho, o Dia do Orgulho Autista foi criado em 2005 pelo grupo Aspies For Freedom. Diferente de outras datas focadas na conscientização médica, o 18 de junho nasceu de um movimento político e social de pessoas autistas para celebrar a neurodiversidade — a compreensão de que o cérebro autista não é uma versão “quebrada” do cérebro padrão, mas uma variação natural da mente humana.
No Brasil, o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que cerca de 2,4 milhões de pessoas declararam ter o diagnóstico de autismo . Com a proximidade da Copa do Mundo, a presença dessa população nos espaços de lazer traz à tona um debate urgente: como fazer uma festa nacional sem que os estímulos sensoriais (fogos, gritos, buzinas) se tornem barreiras de exclusão?
A pluralidade do espectro e a invisibilidade feminina
Para garantir a inclusão, o primeiro passo é abandonar os estereótipos. A psicóloga e colunista da Revista Autismo, Paula Ayub, destaca a diversidade dentro do próprio espectro.
“Quem conhece uma pessoa autista conhece uma pessoa autista, não conhece o autismo. Estamos falando de uma deficiência invisível e plural”, afirma. Ela explica que o aumento recente nos diagnósticos reflete uma correção histórica, especialmente para as mulheres: “Atualmente, existe um maior entendimento do quadro e, além disso, passamos a ver o quanto as mulheres, por exemplo, foram invisibilizadas. A gente não conseguia ver o autismo feminino por uma questão cultural, de gênero. O fenótipo do autismo feminino é muito diferente do masculino”.
Sobre as necessidades de adequação, a especialista pontua que o autismo sempre demandará algum nível de adaptação do ambiente ou da rotina, seja por meio de ferramentas de organização, abafadores de ruído ou terapias. “Os níveis de suporte são as diferentes necessidades de cada autista. Tem pessoas que necessitam de suporte praticamente 24 horas por dia e há aquelas que necessitam de um suporte menor. O que é certo é que pessoa autista necessita de algum tipo de suporte. Se não precisa, não é autista”, esclarece Paula.
Copa do Mundo: Torcida com regulação sensorial
Para muitas pessoas autistas, o clima de Copa do Mundo pode representar um desafio devido à sobrecarga sensorial. No entanto, a solução não é o isolamento, mas a adaptação do ambiente e o respeito à autonomia de cada indivíduo.
“A principal orientação é respeitar as individualidades. Cada autista tem necessidades diferentes. Alguns preferem acompanhar os jogos em ambientes mais tranquilos, outros utilizam abafadores de som, óculos escuros ou brinquedos antiestresse. O importante é perguntar à própria pessoa o que ela precisa e respeitar essa necessidade”, orienta a psicóloga.

A recomendação para famílias, bares e espaços públicos é a criação de locais de descompressão. “Não podemos presumir que todos vão querer participar das comemorações da mesma forma. Respeitar o momento de se afastar, evitar abraços inesperados, reduzir estímulos excessivos e oferecer ambientes acolhedores são atitudes fundamentais para uma torcida verdadeiramente inclusiva”, completa.
A vivência pessoal do orgulho
Enquanto o movimento da neurodiversidade celebra a identidade autista de forma coletiva, no âmbito pessoal, cada indivíduo e família constrói sua própria relação com o diagnóstico e com o orgulho de sua trajetória.
Geraldo, de 16 anos, é apaixonado por futebol e já sabe como vai acompanhar a Copa respeitando seus limites sensoriais. “Eu gosto muito de futebol, mas prefiro assistir no meu canto, sem muita muvuca”, conta o adolescente, que utiliza fones de ouvido para lidar com o barulho. Sobre sua identidade, ele reflete: “Eu não tenho necessariamente orgulho do autismo. Tenho orgulho de ser o Geraldo. O autismo é uma das minhas características, mas o que me faz sentir orgulho é quem eu sou.”
Sua mãe, Juliane de Araújo, compartilha dessa visão focada no desenvolvimento do filho. “Tenho orgulho do Geraldo exatamente como ele é. Ele é estudioso, dedicado, tem seus amigos e seus sonhos. O autismo faz parte dele, mas não o define.” Para ela, a jornada é de descobertas: “Todo dia a gente descobre alguma coisa nova. A convivência nos ensina a entender melhor as necessidades dele e a enxergar o mundo por outras perspectivas. É um aprendizado diário que nos torna mais empáticos e conscientes.”
Para Wolf Kos, presidente do Instituto Olga Kos — organização que há 19 anos desenvolve projetos de inclusão —, o 18 de junho é um lembrete prático de convivência. “Seja durante a Copa do Mundo ou em qualquer outro momento, reconhecer as individualidades e garantir que cada pessoa possa participar da sociedade da forma que lhe for mais confortável é o caminho para uma convivência mais justa e acolhedora”, finaliza.
